Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 18/09/2021
A obra “Utopia”, de Thomas More, retrata uma sociedade ideal, ausente de quaisquer conflitos sociais, a partir de uma comparação com sua precária realidade inglesa do século XVIII. Analogamente, o cenário brasileiro hodierno é semelhante ao precário de More, visto que a cultura do cancelamento é latente. Torna-se urgente, portanto, a criação de meios os quais visem à mitigação dos fatores potencializadores, como a falta de fiscalização e a imposição social dessa cultura.
É de crucial importância analisar a teoria da filósofa Hannah Arendt, no livro “Eichmann em Jerusalém”, a qual diz respeito à naturalização de problemáticas e sua consequente banalização. Desse modo, o contexto da natualização da ausência da fiscalização estatal no âmbito digital relaciona-se com a ideia de Hannah. Essa situação é grave, justamente porque ocasiona a banalização de uma realidade em que há impunidade dos casos da cultura do cancelamento, a qual visa combater injustiças, contudo, pratica-as muitas vezes, uma vez que o aspecto arbitrário e o discurso de ódio são característicos do problema, fazendo que a maior parcela dos casos seja crime. Nesse ínterim, se a omissão estatal acerca da questão fiscalizatória for a regra, a devida punição aos criminosos será a exceção.
Outrossim, convém ressaltar o Fato social, do sociólogo Durkheim, que é entendido como a imposição cultural de hábitos aos indivíduos. Dessa maneira, esse conceito é latente no Brasil e reverbera-se na forma da cultura do cancelamento, na medida em que, durante o processo de formação social dos jovens, eles são frequentemente expostos a esse hábito. Isso torna-se precário por haver a construção de um pensamento coletivo sobre as vítimas, a qual acarreta não só preconceitos, mas também o afastamento social desses, por gerar um sentimento de não pertencimento a comunidade segregadora. Assim, enquanto esse cenário lastimável persistir, continuará havendo a anomia do corpo social.
Urge, por conseguinte, a atuação do Poder Legislativo federal para criar projetos constitucionais, por intermédio de debates entre os representantes da sociedade, os quais iriam propor leis rígidas sobre os casos da cultura do cancelamento que rompam com os limites legais. Tal ação contaria com a criação de um canal de comunicação entre os próprios cidadãos e uma central, a qual analisaria a denúncia e podendo punir os agressores, podendo variar de multa até a prisão, em casos como racismo. Destarte, teria-se o fito de reduzir a omissão estatal e romper, gradativamente, com a naturalização dessa cultura no Brasil.