Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/07/2021
Na Idade Média, a Inquisição - instituição formada pelos tribunais da Igreja Católica - perseguia, julgava e punia pessoas acusadas de se desviar de suas normas de conduta. Atualmente, a cultura do cancelamento apresenta-se como uma “Inquisição Moderna”, visto que se caracteriza por uma forma de ostracismo que incentiva a exclusão de pessoas que demonstram comportamentos e opiniões considerados incorretos ou repreensíveis. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um grave problema progênito do individualismo e da má influência midiática.
Em primeiro plano, é válido mencionar que segundo Schopenhauer, filósofo alemão, o motor principal e fundamental no homem é o egoísmo. Sendo assim, ao se avaliar a fundo as causas do problema, observa-se que a ausência de alteridade se constitui como extremamente relevante. Destarte, a contemporaneidade, marcada pelo advento do viés tecnológico e consequentemente pela descentralização de informações, encontrou nas redes sociais o ambiente propício para executar julgamentos e linchamentos virtuais sob a falsa ótica da promoção da justiça social. Logo, esse cenário contribui para deterioração das relações sociais, uma vez que o lócus cibernético apresenta-se como objeto de extrema importância para cultura comunitária e afetiva na pós modernidade.
Ademais, Thomas Hobbes, filósofo inglês, afirmava que o Estado deveria ser a instituição fundamental para regular as relações humanas, haja vista a condição natural dos homens que os impele à busca ao atendimento de seus desejos a qualquer preço, de forma violenta e egoísta, movida por paixões. Diante disso, verifica-se hodiernamente que o Estado se afasta de sua função abarcativa e reguladora, sendo permissivo ao cenário de julgamentos vexatórios, violação ao direito da personalidade e aos crimes contra honra cometidos em ambiente virtual. Assim, frente a inexpressividade estatal, a supressão do direito à liberdade individual de expressão evidencia a utopia social presente na Carta Magna.
Portanto, são essenciais medidas operantes para a reversão da permanência da cultura do cancelamento na sociedade. Para isso, compete ao Ministério da Educação, através dos recursos midiáticos, criar campanhas de conscientização a respeito dos malefícios gerados pela disseminação desse comportamento nocivo. Tais ações devem ocorrer, enfaticamente, através das redes sociais dos órgãos governamentais agregado a criação de uma hashtag para identificar a campanha e gerar engajamento. Outrossim, cabe as escolas – principal esfera de socialização – a disseminação de conceitos como alteridade e empatia, bem como o direcionamento para o bom uso dos recursos tecnológicos. Assim, a afirmação de Schopenhauer deixará de ser uma representação verídica da sociedade.