Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 18/06/2021
A série estadunidense “Gossip Girl” retrata a história de uma comunidade assolada por um site difamador cujo intuito é promover um linchamento social de seus integrantes. Nesse sentido, a obra ficcional evidencia um contexto semelhante na sociedade contemporânea: a cultura do cancelamento, a qual suscita debates acerca de sua legitimidade. De fato, tal cenário é benéfico por prevenir atitudes desprezíveis, mas também é maléfico no que tange as consequências à psique do indivíduo “cancelado”.
Em primeiro lugar, faz-se necessário ater-se a importância do cancelamento em repudiar atitudes plausíveis de desprezo, prevenindo, dessa forma, a persistência de tais principalmente no ambiente cibernético. Isso porque, de acordo com o utilitarista Jeremy Bentham na sua teoria panóptica, a forma de garantir o bom comportamento dos presos seria impondo-lhes constante sensação de estarem sendo observados, pois, na visão do autor, não cometeriam atos delituosos na frente de outrem. Paralelamente, a internet (prisão) é vigiada pelo cancelamento que promove um ambiente inóspito à delitos semelhante a proposta de Bentham.
Por outro lado, a cultura do cancelamento apresenta caráter maléfico já que, na maioria das vezes, ultrapassa a finalidade educacional e se torna um instrumento punitivo, promovendo o linchamento da pessoa “cancelada”. Tal postura pode acarretar tortura psicologia, pois um grupo bombardeia a rede social de um indivíduo com comentários maldosos e ameaçadores os quais se espalham em proporção exponencial, fazendo com que ele não se permita mais o autocuidado, como explica Jaqueline Conceição, consultora da ONU.
Portanto, é imprescindível que a sociedade, por meio das mídias sociais, promova limites à cultura do cancelamento a partir de mensagens reflexivas e propagandas incentivando o diálogo empático e construtor. Além disso, incumbe ao Estado, a partir do legislativo, estender a incidência das leis que criminalizam tortura psicológica ao espectro cibernético, a fim de extinguir a cultura do cancelamento e no lugar acender a cultura da crítica construtiva.