Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 01/07/2021

Com o advento da Revolução Técnico-Científico-Informacional, proposta pelo geógrafo Milton Santos, houve o avanço da tecnologia, sobretudo, dos meios de comunicação virtual. Consolidou-se nas redes sociais, assim, o surgimento da cultura do “cancelamento”, que inicialmente tinha o propósito de aumentar a visibilidade de problemas ambientais e sociais. Contudo, no cenário contemporâneo esse comportamento vincula-se à manifestação de ódio seguindo uma lógica punitivista. Tal problemática, em suma, deve-se à falta de comunicação harmônica, bem como à validação moral pela coletividade.

Em uma primeira análise, observa-se que a difusão das redes cibernéticas permite as pessoas maior liberdade de expressão, como também permite maior acesso ao conhecimento. No entanto, muitos indivíduos fazem mau uso do ciberespaço, em razão deles estarem pouco abertos a uma troca de ideias para a apresentação do próprio ponto de vista e ao respeito do outro ponto apresentado corroborando, assim, a consolidação da cultura do “cancelamento”, devido à falta de comunicação simétrica. Essa situação, por conseguinte, está em consonância com o pensamento do alemão Habermas, pois para o sociólogo o agir comunicativo e a ética comunicativa estão estritamente relacionadas, tendo em vista que a atividade de conversar é uma forma de ação transformadora, desde que os membros da discursão estejam abertos a um diálogo. Nota-se, então, que os usuários da internet propagam a atitude do “cancelamento” como maneira de deslegitimar outros pontos de vista, que são diferentes do dele e inviabiliza, assim, uma troca justa de pensamento.

Ademais, em uma segunda análise, verifica-se que o julgamento moral das atitudes alheias intensificou com a cultura do “cancelamento”, pois a partir dela é possível punir outro indivíduo da esfera cibernética por atitudes ou postagens ofensivas. Essa rede de linchamento virtual está de acordo com à teoria da “Microfísica do poder”, do filósofo francês Foucalt, pois um grupo de pessoas tem o poder de condenar moralmente outros, com o intuito de atacar à reputação do “cancelado”. Exemplo disso é a blogueira Pugliesi, a qual foi alvo após postar vídeos aglomerando em meio a uma epidemia de coronavírus. Tal atitude, todavia, não houve validação ética refletindo incredibilidade de sua imagem.

Percebe-se, portanto, que a cultura do “cancelamento”, advinda da Revolução de Milton, seja mitigada. De início, cabe ao Ministério da Educação, órgão responsável pelas políticas educacionais em âmbito nacional, incentivar a abordagem do tema nas escolas, por meio de aulas de Sociologia - as quais construam pilares essenciais da ética comunicativa, conforme Habermas – com o objetivo de desenvolver a prática de um diálogo simétrico entre pessoas com opiniões divergentes para evitar, desse modo, a lógica punitivista da “Microfísica do poder” com o emprego do respeito nos debates.