Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 20/07/2021
Antes de falecer, em meados de 2017, o sociólogo Zygmunt Bauman afirmou que as redes sociais eram armadilhas. Para o autor, elas não criam as habilidades socias necessárias para que exista um diálogo produtivo entre as pessoas. São nessas redes que existe hoje uma tentativa de silenciar empresas ou influenciadores que comentem algum erro, um fenômeno que tem recebido o nome de “cultura de cancelamento” e que muitas vezes se manifesta por meio do discurso de ódio e da intolerância. Diante disso, faz-se necessários discutir a ausência de uma política educacional voltada para a comunicação e a desmobilização social.
Convém ressaltar, a princípio, que a falta de um projeto educacional que potencialize um contato crítico dos estudantes com as tecnologias se configura um problema. A Lei 7.716 de janeiro de 1989, por exemplo, estabelece a pena de 3 anos de reclusão para quem praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Apesar disso, a cultura de cancelamento, quando presente, revela um modo de atuação que desobedece a todos esses indicadores legais, especialmente quando o alvo é alguém pertencente a uma minoria social. Isso mostra que o tema carece de discussão e, sendo a escola o principal agente formador, cabe a ela permitir a criação e execução de métodos que visem melhorar o comportamento dos usuários dentro das redes sociais.
Ainda no contexto que envolve a relação entre o cancelamento e o comportamento dos usuários na internet, pode-se citar o conceito de “Shitstorms” desenvolvido pelo filósofo coreano Byung-Chul Han. Esse é o nome dado ao conjunto de ações realizadas por internautas que visam boicotar ou difamar tanto pessoas como empresas. O problema desse tipo de prática, como aponta o autor, é que ela cria uma falsa impressão de que o coletivo está unido em torno de um objetivo comum, quando na verdade seu efeito é completamente o contrário, já que o egoísmo, a idolatria e o lucro estão na base de sua formação. Isso significa que o cancelamento, além de um movimento temporário e que foca de maneira mais agressiva em determinados perfis, faz com que as pessoas gastem energia em torno de algo que só beneficia as plataformas digitais.
Portanto, faz-se necessário que o Ministério da Educação crie um programa que vise implementar cursos voltados para o uso da comunicação digital nas escolas do Ensino Básico, por meio de investimentos públicos e de parcerias com pesquisadores. Logo, essa ação certamente promoverá uma mudança gradativa na forma como o ato de cancelar é exercido hoje.