Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 01/08/2021

O movimento hoje conhecido como “cultura do cancelamento” começou, há alguns anos, como uma forma de chamar a atenção para causas como justiça social e preservação ambiental. Contudo, essas atitudes de promover boicotes às marcas ou às figuras públicas precisam ser discutidas, visto que podem mutilar alguns direitos de suas vítimas, além de, muitas vezes, não figurarem atos de defesa, mas serem potencializados pelo exacerbado individualismo.

Diante desse cenário, é importante compreender de que maneira a liquidez da sociedade contribui para a manutenção desse estigma. Nesse viés, na obra “Modernidade Líquida”, o sociólogo Zygmunt Bauman defende que o individualismo é uma das principais características das sociedades modernas e, por conseguinte, a população tende a não tolerar diferenças. Sendo assim, no Brasil, essa questão assume contornos específicos, visto que a quem exija do outro o mesmo posicionamento político, religioso ou cultural e, quando isso não acontece, a cultura do cancelamento é acionada. Nesse sentido, empresas ou famosos são marcados em “posts” nas redes sociais, com o intuito de serem excluídos, perderem patrocínios, seguidores ou clientes, devido a falas ou atitudes que não são aceitas ou defendidas por todos.  Dessa forma, a melhor maneira de resolver esse problema é desmitificando o individualismo.

Aliado a isso, é necessário analisar como o cancelamento pode comprometer na garantia de direitos constitucionais.  Sob tal ótica, a Constituição Federal assegura a liberdade de expressão como um direito fundamental. Por outro lado, segundo o geógrafo Milton Santos, em “Cidadania Mutilada”, alguns direitos, apesar de serem garantidos constitucionalmente, não alcançam a totalidade do corpo social. Assim, quem são esses cidadãos mutilados, se não aqueles que são cancelados? Muitas vezes são negados a esses indivíduos o direito à defesa, com isso o acesso à liberdade de expressão é negligenciado e muitos são massacrados na internet. Logo, é importante lutar pela defesa da justiça e contra práticas consideradas errôneas, mas tudo deve envolver o diálogo entre todos os participantes.

Diante dos fatos supracitados, é notório que a cultura do cancelamento tem, muitas vezes, a intolerância como pano de fundo. Portanto, as escolas- pois são a principal instituição responsável pela formação de cidadãos críticos- devem, por meio de aulas e debates, discutirem com os jovens e as crianças a necessidade do respeito a opiniões divergentes, a fim de evitar o cancelamento arbitrário nas redes sociais. Ademais, compete à policial civil instalar investigações mais precisas, com o intuito de coibir que pessoas sejam criticadas injustamente, sem direito à defesa. Assim, será possível garantir a liberdade de expressão a todos, como assegura a Carta Magma.