Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 17/08/2021
O episódio “White Bear”, da série distópica “Black Mirror”, descreve uma realidade na qual infratores são punidos, pela sociedade, em um grande espetáculo televisivo. Fora da ficção, no entanto, é possível observar um modelo punitivo parecido nas redes sociais, o qual recebe o nome de “cancelamento” e consiste no ataque à reputação de figuras, famosas ou não, que, segundo os perfis digitais, tenham cometido alguma infração e, por isso, devam repensar suas ações e melhorar. Nesse contexto, torna-se necessário discutir sobre esse movimento de justiça que, muitas vezes, é uma forma de violência virtual e foge de seu intuito inicial.
Primeiramente, é válido observar que o cancelamento nem sempre representa um método efetivo para “corrigir” e “educar” aqueles que são alvos dessa punição devido a algum comentário preconceituoso ou a alguma ação imoral. Isso se deve ao fato de que os indivíduos utilizam o ato de cancelar apenas como forma de humilhar e castigar o alvo, esquecendo que o objetivo final desse movimento deve ser a conscientização, pois, como afirma o filósofo Kant, o homem é fruto da instrução que recebe. Portanto, cabe apontar que essa forma de justiça virtual não é o caminho para uma sociedade progressista e inclusiva, já que isola e pune os que deveriam ser instruídos a fim de evoluírem.
Ademais, é necessário destacar que o cancelamento, por vezes, não tem resultado sobre os comportamentos sociais, visto que a punição não é tão duradoura quanto o aprendizado. Um exemplo é o caso da influencer digital Gabriela Pugliesi, que foi cancelada por promover uma festa em sua casa no meio da pandemia do coronavírus e, contudo, não demorou muito para recuperar os patrocínios e os seguidores que perdeu durante a onda de ataques que recebeu por sua ação imoral. Assim, nota-se que, sem a conscientização, o movimento é banalizado e utilizado apenas como meio de propagar violência e atacar indivíduos no meio virtual — ações que não trazem resultados positivos para a sociedade.
Em suma, infere-se que, para que a cultura do cancelamento recupere seu objetivo principal — que é promover a evolução e a melhora comportamental de quem comete um erro na internet —, é imprescindível que o Estado, por intermédio de suas redes sociais, faça publicações, de cunho educativo, alertando sobre a violência digital e os canais para denunciá-la, por meio da ajuda de influenciadores digitais, a fim de que o cancelamento não se torne uma desculpa para humilhar e atacar usuários da internet. Somente a partir de tal ação será possível que a realidade contemporânea se distancie da realidade fictícia apresentada na série “Black Mirror”.