Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 17/08/2021

O filósofo Martin Heidegger, na obra “Ser e Tempo”, aborda a ideia de que a tecnologia ameaça tirar do homem a sua capacidade de refletir sobre as coisas e transformá-lo em um ser que produz de maneira irrefletida. Paralelamente, o pensamento de Heidegger se equipara ao Brasil atual, visto que as tecnologias de comunicação e informação se potencializam em um cenário irrefletido e controverso da cultura de cancelamento na sociedade. Diante disso,a influência midiática e a fragilidade educacional unem-se para gerar os efeitos nocivos de tal prática.

A princípio, observa-se que a larga presença da mídia no cotidiano na nação impulsiona a continuidade do desgaste da imagem dos indivíduos. Nesse viés, para o escritor George Orwell, “a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa”. De forma análoga, é válido destacar que parte da imprensa nacional corrobora o argumento de Orwell, dado que incentivam o julgamento virtual como forma de se autopromover e alcançar o lucro, e não dar importância e justiça a um grupo oprimido, há apenas a mudança do alvo de tal violência. Por conseguinte, a vinculação da normalização prejudicial da difamação cibernética fomenta danos psicológicos, como depressão e suicídio, aos sentenciados na rede.

Além disso, é fundamental apontar que o letramento digital precário amplia o “cancelamento” on-line. Nessa perspectiva, aponta-se que tal conjuntura é gerada pela escassez de políticas públicas educacionais eficientes para os cidadãos, de modo que há um corpo social apático e desrespeito no país, o qual não se coloca no lugar do próximo. Como desdobramento, ocorre a consolidação do pensamento de Michel Foucault, no livro “Microfísica do Poder”, em que o ser humano é movido por um viés de desejabilidade social, ou seja, tem a tendência de tomar decisões baseadas na maneira com que as suas escolhas serão avaliadas por outras. Assim, motiva uma busca inalcançável por uma perfeição ilusória, na qual é necessário seguir as regras impostas para não ser alvo das críticas e ser aceito.

Portanto, diante do referido, intervenções capazes de orientar os tupiniquins acerca da cultura do cancelamento são improrrogáveis. À vista disso, é dever do Congresso Nacional criar leis e incentivar agências de checagem, através da fiscalização qualificada e aplicação de multas em verbas para civis ao usarem de abordagens ofensivas contra outros, a fim de desenvolver discussões democráticas que ressaltem a dignidade humana. Ademais, o Ministério da Educação necessita gerar a implantação de projetos semanais em escolas, por meio de palestras que eduquem os jovens quanto o uso consciente das redes sociais e o respeito dos direitos humanos das vítimas, com efeito de distanciar o Brasil de “Ser e Tempo”.