Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 18/08/2021
Cancelamento: o primeiro passo para a queima de livros
Para o filósofo Habermas, a comunicação é um dos pilares fundamentais da democracia. Na contemporaneidade, porém, flerta-se com o autoritarismo, por meio do cancelamento de indivíduos cujas opiniões e ações divergem do esperado pela maioria. Isso pode limitar a diversidade de pensamentos e, consequentemente, engendrar a decadência da cultura.
Em primeiro lugar, percebe-se que o cancelamento é um ataque velado à liberdade de expressão, uma vez que tenta excluir do debate aqueles que pensam diferente das massas, privando-os da possibilidade da defesa de seus pontos. Ora, esse é um mecanismo análogo ao que foi utilizado durante a Ditadura Civil-militar brasileira: da mesma forma que censuravam-se produções culturais cuja opinião divergia da do governo, também os canceladores tentam tirar de circulação aquilo de que discordam. Evidentemente, a carência de pontos de vista discordantes é prejudicial para a democracia, porquanto esta é alicerçada na diversidade de ideias no debate público.
Em decorrência da homogeneidade de opiniões pretendida pelo cancelamento, surge a possibilidade de ocorrer uma decadência cultural. No livro ‘‘Fahrenheit 451’’, do escritor Ray Bradbury, o medo adquirido pelos artistas de enfrentar críticas foi o que deu origem à distopia, já que a arte passou a privilegiar o gosto do público em detrimento da originalidade de ideias dos artistas, até que os livros passaram a ser queimados por uma sociedade que prefere a cultura de massa. Logo, a onda de cancelamentos é muito preocupante sob a perspectiva cultural, já que seus efeitos podem culminar, conforme anunciado por Bradbury, em um cenário distópico de perda de importância da arte.
Portanto, é imprescindível que o ato de cancelar seja refreado antes que seus possíveis efeitos transpareçam. Para isso, cabe às equipes pedagógicas das escolas incluir a leitura de ‘‘Fahrenheit 451’’ no ensino médio, com um posterior debate acerca do perigo da restrição da liberdade de expressão, o qual deve ser orientado por um professor de filosofia. Ademais, personalidades famosas nas redes sociais devem abordar o tema e se solidarizar com os colegas que forem cancelados, também aconselhando seus fãs a não praticarem o linchamento virtual. Dessa forma, evitar-se-á o triste cenário descrito por Bradbury, e a cultura e a democracia continuarão íntegras na realidade brasileira.