Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 20/08/2021

A famosa série Black Mirror apresenta, em um de seus episódios, uma sociedade na qual as pessoas são avaliadas por notas. Assim, é retratada a forma lamentável que esse sistema afeta as pessoas mal avaliadas. Paralelamente, fora da ficção, é possível observar, na sociedade contemporânea, a forte influência - quase sempre negativa - que a cultura do cancelamento tem sobre os indivíduos afetados por ela. Consoante a isso, pode-se indicar a menor possibilidade de evolução e os efeitos sobre a saúde mental da pessoa “cancelada” como fatores-chave que envolvem essa problemática.

A princípio, vale destacar a impossibilidade de aprendizagem concebida por esse óbice como um dos aspectos principais desse impasse. Sendo assim, ao julgar alguém por uma ação específica - e, muitas vezes, sem contextualização -, o indivíduo cancelador resume, por exemplo, a um “tuíte”, uma discussão que exige complexidade na abordagem e diálogo. Diante do exposto, o clássico livro “Capitães de Areia” conta a história de crianças órfãs que vivem em um trapiche abandonado, e, neste grupo, o indivíduo que descumprir as regras é expulso pelo líder Pedro Bala e, não raramente, se revolta contra o próprio grupo. Isso não difere muito do observado na internet, em que a vítima do cancelamento é expulsa do “grupo internauta” pelos “Pedro Balas” digitais. Nesse sentido, faz-se necessário que a abordagem de discussões importantes seja baseada no diálogo e não na exclusão.

Além disso, o efeito sobre a sanidade psicológica da pessoa atacada é outra consequência associada a esse tema. Sob esse viés, é cabível o postulado do sociólogo Howard Becker, que diz que sujeitos que desviam dos ideais populares tendem a ser excluídos. Por conseguinte, corroborando a ideia do estudioso, essas pessoas sofrem exclusão social de forma abrupta e tendem a ter o psicológico afetado e, em alguns casos, tem o suicídio como resultado. Em suma, a cultura do cancelamento traz à tona sérios problemas que deveriam ser erradicados, como a falta de empatia e compreensão.

Por fim, nota-se a urgente necessidade de reformulação da forma como as correções de atitudes precipitadas são feitas. Portando, com o fim de minimizar a incidência de cancelamentos na internet, o Ministério da Cidadania, em parceria às emissoras de TV, deve, por meio de comerciais exibidos no horário nobre, apresentar os efeitos causados pela cultura do cancelamento no psicológico de quem o sofre. Ademais, deve-se proporcionar apoio e críticas construtivas que visem a evolução pessoal, ao invés de marcar indivíduos com “score” negativo, como em Black Mirror.