Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 02/09/2021
As origens do termo cancelamento remetem à cultura urbana do povo negro na América do Norte, momento histórico muito bem retratado na série “Pose”. No entanto, os significados atribuídos a esse termo na sociedade contemporânea adquiriram um cunho hostil. De tal forma, a agressividade do linchamento virtual se fundamenta na atmosfera coletiva virtual e na banalização das consequências advindas dessas interações.
Em primeiro plano, é imprescindível destacar que as redes sociais fornecem um ambiente muito fértil para a proliferação da cultura do cancelamento. Dessa maneira, ao analisar o conceito de habitus, elaborado pelo pensador Pierre Bourdieu, em que o sujeito é influenciado por fatores anteriores e exteriores a ele, é possível estabelecer um paralelo com as redes. Essas, por sua vez, criam uma atmosfera que impulsiona convenções populares, o que exacerba o efeito de manada, no qual uma crítica se transforma em milhares de ofensas.
Ademais, o caráter personalizado das redes sociais culmina em uma sociedade na qual predomina o individualismo. Logo, as consequências das interações virtuais, muitas vezes, são desconsideradas. O perigo desse fenômeno pode ser explicado pela banalização do mal, termo da escritora Hannah Arendt, que se refere à indiferença diante de uma quantidade incomputável de atrocidades.
Assim, quando linchamentos se tornam rotineiros, perdem sua relevância e deixam para trás as pessoas afetadas por ele. Portanto, é possível concluir que o conjunto de convenções e o individualismo nas redes sociais tem papel importante na continuidade da cultura do cancelamento. Para reverter esse quadro, o Poder Legislativo deve atuar a partir dos crimes existentes de calúnia, injuria e difamação, adaptando-os ao âmbito virtual. Além disso, disciplinas de Informática devem orientar os alunos quanto a interações online, dessa forma será possível promover uma navegação mais segura e compassiva.