Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 31/08/2021

Em um dos episódios da série “Black Mirror”, é retratada uma sociedade onde pessoas são atacadas por um enxame, caso não sigam as regras e o que é esperado. Fora da ficção, é fácil comparar tal episódio com os constantes “cancelamentos” nas redes sociais, nos quais há o incentivo em massa para julgar e deixar de apoiar determinadas personalidades ou empresas, em razão de erro ou conduta reprovável. Contudo, a cultura do cancelamento é contraditória, visto que ao tentar dar importância e justiça a um grupo oprimido há apenas a mudança do alvo de tal violência. E, outrossim, é evidente que esse ato gera um entrave no amadurecimento pessoal e uma busca incessável pela perfeição.

Primeiramente, é válido destacar os pensamentos antagônicos entre julgamento público, ato de cancelar, com o método socrático, conhecido como Maiêutica, que consiste na multiplicação de perguntas, induzindo o interlocutor na descoberta de suas próprias verdades. Dessa forma, diferente das concepções do filósofo, as atuais ações na internet representam impasses no desenvolvimento do conhecimento e amadurecimento da pessoa julgada, uma vez que tira o direito ao entendimento devido do assunto e que, consequentemente, não gera mudanças em seu pensamento. Ademais, julgar que um pensamento é imutável e oprimir pessoas por eles é, na filosofia de Foucault, uma forma de tirania, posto que nelas todas as atitudes também têm o objetivo de vigiar e punir.

Além disso, cabe salientar que na óptica foucaultiana, especificamente em seu livro “Microfísica do Poder”, o ser humano é movido por uma orientação de desejabilidade social, ou seja, por uma categoria de viés cognitivo, segundo o qual as pessoas têm a tendência mental de tomar decisões baseados na maneira com que as suas escolhas serão avaliadas por outras. Essa conduta, no entanto, gera uma busca inalcançável pela perfeição, para que, assim, haja a aceitação dessa pessoa em um grupo social. Logo, essa perspectiva aborda o conceito de cultura do cancelamento, dado que para entrar nesse grupo é necessário seguir as regras impostas para não ser alvo das críticas. Entretanto, é vital reconhecer que a utopia, consoante Eduardo Galeano, serve apenas para caminhar, e qualquer tentativa de alcançá-la tornará a sociedade doente.

Portanto, os impactos da cultura do cancelamento necessitam ser atenuados. Para isso, o Governo Federal, órgão responsável pelos interesses da administração federal no Brasil, deve usar de sua influência para reduzir as consequências do tema e para evidenciá-las aos usuários das redes sociais, por meio de campanhas de conscientização com auxílio de profissionais especializados no tema, como psicólogos e sociólogos no intuito de refrear a postura punitivista da população e afastá-la daquela representada na série.