Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 02/09/2021

A música “Lovers”, de Chico César e Zeca Baleiro, traz uma crítica ao famigerado “tribunal da internet”. No trecho “Vou cantar lovers para os haters”, fica evidente a súplica do eu lírico para que os internautas sejam mais empáticos, amando mais e odiando menos. Entretanto, percebe-se que poucos escutam tal pedido na sociedade contemporânea, o que torna o debate acerca da cultura do cancelamento imprescindível para diminuir suas principais consequências: o efeito manada e a perseguição.

Em primeiro plano, cabe destacar a substituição da opinião individual pela coletiva. Sob essa ótica, segundo Friedrich Nietzsche, o ser humano possui uma tendência a agir da mesma forma que um outro, a partir da imitação e da intensificação de suas reações. Logo, fica nítido que o processo descrito pelo filósofo como “efeito manada” acontece nas redes sociais durante o cancelamento, visto que, na maioria das vezes, as pessoas sequer refletem antes de reproduzir o pensamento alheio e de encher as redes sociais de alguém com comentários maldosos. Preocupantemente, isso comprova que a cultura do cancelamento ocasiona uma reação em massa.

Além disso, vale pontuar que a perseguição é outro resultado do problema em questão. Nesse contexto, na época da Santa Inquisição, era comum que mulheres fossem caçadas por, supostamente, praticarem bruxaria. Então, depois de julgadas, elas eram mandadas à fogueira, sem direito à defesa. De forma análoga, é triste afirmar que o “tribunal da internet” é uma espécie de inquisição contemporânea, pois, apesar de não sentenciar ninguém à morte, incita uma perseguição semelhante à praticada no passado, em que as vítimas não tem espaço para se justificar ou reparar o suposto erro cometido. Luisa Sonza, por exemplo, recebe diversas mensagens maldosas por um rumor de traição a seu ex-marido, o qual ela não consegue desmentir. Tais informações são revoltantes e indicam que o assédio virtual advém do cancelamento.

Portanto, sabendo disso, o Ministério da Educação deve ampliar a aplicação da pedagogia de Paulo Freire nas escolas do país, por meio do incentivo a debates acerca da cultura do cancelamento, os quais desenvolvam a capacidade crítica dos estudantes, para que eles se mantenham firmes com seus próprios pensamentos e não se deixem levar pelo “efeito manada”. Ademais, esse modelo educacional também precisa incluir palestras sobre os malefícios que o linchamento virtual pode ocasionar na saúde mental das vítimas, permintindo que os alunos enxerguem que a perseguição não é algo positivo e deixem de praticá-la. Assim, a quantidade de “lovers” poderá ultrapassar a de “haters”