Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 31/08/2021

Criação norte-americana da década de 1950, a internet surgiu em laboratórios para passar informações científicas da época. Assim, embora a utilização dessa ferramenta como instumento de compatilhamento de dados tenha crescido consideravelmente nas últimas décadas -impulsionada após a Guerra Fria-, a cultura do cancelamento, majoritariamente ocasionada nas redes sociais, tornou-se comum na sociedade contemporânea, fazendo-se necessário o debate desse cenário por dois motivos: o estigma social sofrido pelo cancelado e a insensibilidade do cancelador.

Em primeira análise, afirma-se que é imprescindível debater sobre a cultura do cancelamento para que as marcas sociais sofridas pelos cancelados sejam diminuidas e a banalização daquele “habitus” seja revista. Consoante o filósofo francês Pierre Bourdieu, o habitus é um conjunto de comportamentos e valores herdados socialmente, principalmente reforçados em instituições, em que se obtém -como resultado desse sistema- a hierarquização das pessoas, o que é, frequentemente, a base para a exclusão de alguns indivíduos. Nessa perspectiva, pode-se fazer uma analogia ao atual cenário brasileiro, à medida que criou-se uma cultura de cancelar indivíduos com opiniões socialmente impopulares ou “mal vistas” atualmente, prática esta que deixa estigmas -como a exclusão- na vida social e psicológica de quem é cancelado. Esse fato é ultrajante e de extrema preocupação, sendo proeminente o debate sobre essa cultura -o porquê foi normalizada e suas consequências para os indivíduos que são vítimas dessa banalização-, principalmente nas vias de comunicação online, por serem de rápida dispersão, para que o ato de “cancelar” seja urgentemente repensado.

Outrossim, é importante ressaltar a falta de sensibilidade do cancelador pelo cancelado como fator indispensável para a discussão sobre a “cultura de exclusões sociais” na sociedade atual. Segundo o sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, no livro “A Lei e a Ordem”, a anomia é a condição social na qual as normas reguladoras do comportamento das pessoas perderam sua validade. Nesse sentido, pode-se fazer uma alusão ao quadro nacional contemporâneo, ao passo que a falta de empatia do cancelador e, muitas vezes, a sensação de impunidade de quem pratica o cancelamento constitui-se como anomia, perspectiva que deve ser debatida para que o padrão culturalmente enraizado daquela ação acabe.

Portanto, medidas são necessárias para a mudança do cenário atual. O Ministério da Cidadania, juntamente com o Ministério das Comunicações, deve combater a cultura do cancelamento, por meio debates nos principais meios de comunicação -inclusive os onlines-, os quais conscientizarão os indivíduos sobre as consequências para quem é cancelado e para quem cancela, a fim de que a banalização dessa prática diminua gradativamente na sociedade.