Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 01/09/2021

Durante o Império Babilônico os julgamentos eram brutais e impiedosos, uma vez que eles eram guiados pela Lei do Talião - “olho por olho, dente por dente”. Atualmente, a “cultura do cancelamento”, muitas vezes, parece resgatar essa prática antiga, no momento em que um indivíduo passa a ser alvo de várias críticas no ambiente virtual, sem chance de defesa. Logo, esse fenômeno contemporâneo precisa ser debatido, tendo em vista dois aspectos: que as pessoas estão “cancelando” outras exageradamente sem nenhum viés jurídico e que os efeitos positivos dessa forma de justiça são passageiros.

De início, quando se discute acerca da “cultura do cancelamento”, é preciso analisar as consequências desse fenômeno em relação aos direitos civís, haja vista que os alvos das críticas são expostos publicamente por pessoas que não têm formação jurídica. Nesse sentido, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é ferida, pois segundo ela, todo ser humano tem direito a um julgamento justo em um tribunal e com oportunidade de defesa. Dessa forma, é evidente que, ao “cancelar” atos racistas, homofóbicos, machistas, os indivíduos estão expressando suas opiniões e defendendo uma causa democrática. No entanto, é preciso tomar cuidado para não julgar uma pessoa sem procurar saber o que de fato aconteceu e sem respeitar a integridade e dignidade do outro.

Ademais, é necessário falar sobre os efeitos positivos do cencelamento que, infelizmente, são efêmeros, uma vez que os problemas, pessoas e situações são criticadas superficialmente pelo seus atos. Nesse contexto, a teoria, “Sociedade Líquida”, do filósofo Zygmunt Bauman, explica com maestria esse cenário, tendo em vista que segundo ela o mundo contemporâneo é formado por acontecimentos passageiros e indivíduos que não buscam um conhecimento aprofundado. Destarte, um racista que pratique um crime pode ser cancelado no ambiente virtual e, como resultado, ser julgado corretamente e preso. Porém, a sociedade logo se esquece do ocorrido e tende a não discutir sobre as origens e as consequências do ato cometido pelo criminoso.

Portanto, a “cultura do cancelamento” é um fenômeno delicado que precisa ser debatido socialmente. Para isso, o Ministério da Justiça deve educar as pessoas quanto aos procedimentos para um  julgamento que siga as leis, por meio de campanhas publicitárias divulgadas em rede nacional  que mostrem como os indivíduos podem fazer denuncias de forma correta sem desrespeitar os direitos da pessoa que esta sendo alvo de críticas, afim de respeitar os Direitos Humanos. Além disso, o Executivo deve incentivar o debate acerca dos problemas sociais, mediante o desenvolvimento de um ambiente virtual, no qual os indivíduos possam debater de maneira profunda sobre casos de cancelamento. Desse modo, a Lei do Talião não será replicada no ambiente virtural contemporâneo.