Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 07/09/2021
A transição da Modernidade Sólida para a Modernidade Líquida, explicada a partir da teoria do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, trouxe mudanças nas relações e no viver, fazendo com que tudo seja momentaneamente intenso e dure pouco. Na atualidade, o maniqueísmo e efermeridade relacionada aos sentimentos, que nos faz amar ou odiar alguém intensamente a partir de ações mínimas, - são os pilares da cultura do cancelamento, a qual leva pessoas a serem condenadas de forma definitiva por seus erros, colocando fim em carreiras e trazendo prejuízos à saúde mental dos indivíduos.
Sob esse viés, faz-se necessário que haja um debate acerca da cultura do cancelamento e suas influências na sociedade e na vida dos indivíduos. Dessa forma, é evidente que a necessidade de se fazer “justiça com as próprias mãos” ao nos depararmos com os erros dos outros é motriz para que artistas e figuras públicas que cometem desvios sejam condenados de forma intensa e definitiva. Em março desse ano, por exemplo, a participação da cantora cantora Karol Conká no “reality show” “Big Brother Brasil” quase destruiu a sua carreira, já que a artista, ao cometer uma série de erros, foi intensamente criticada, recebendo, inclusive, por parte de internautas, ameaças de morte e trazendo à tona a discussão sobre o poder e as consequências do cancelamento.
Ademais, a falta de limites dos usuários nas redes ao pensarem que a internet é uma “terra sem lei” e deferirem insultos aos que cometem erros pode ter consequências seríssimas para a saúde mental de quem é praguejado. O aumento dos índices de depressão - a doença mais incapacitante do mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) -, da ansiedade e da taxa de suicídio (a segunda principal causa de morte entre o jovens, também segundo a OMS), se enquadra como um possível resultado das ações inconsequentes dos “juízes da internet”, o quais, ao contrário dos oficiais da justiça do Direito Contemporâneo, não dão chance de redenção e arrependimento aos réus.
Dessa forma, torna-se evidente a necessidade de intensificarmos os debates acerca da cultura do cancelamento e das seus resultados na vida dos indivíduos. Sendo assim, torna-se fundamental que o Ministério da Educação invista em campanhas nas escolas e universidades da rede pública de ensino que conscientizem os jovens acerca das consequências que o cancelamento traz para a vida pessoal e para a saúde psicologica das pessoas, visando o fim dessa pátrica. Além disso, os deputados federais podem lançar um projeto de lei que intensifique a fiscalização do mau uso da internet por parte dos internautas, com o objetivo de diminuir a sensação de que a internet é uma “terra sem lei”. Assim, o maniqueísmo caracterísico da Sociedade Líquida terá o seu fim.