Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 06/09/2021
O documentário “A vida depois do tombo”, disponível no streaming “Globoplay”, relata a turbulenta saída da cantora Karol Conká do “Big Brother Brasil”, em que esta, após protagonizar muitas cenas e atitudes problemáticas no programa foi então “cancelada” por quase todos os telespectadores. Com o documentário, é notório como a política do cancelamento vem sendo aplicada na sociedade contemporânea, embora a partir dela muitos debates sejam levantados sobre temas relativos ao preconceito, a pressão psicológica que o cancelado sofre também é muito preocupante.
Em primeiro lugar, sabe-se que a partir do cancelamento, pautas sobre diversos temas passaram a ser discutidas pela população, e o reconhecimento de preconceitos tornou-se mais palpável à sociedade. Entretanto, percebe-se que a cultura do cancelamento não se apresenta como solução para o respeito às diferenças, uma vez que ao invés de “cancelar” a problemática abordada, a cultura vem buscando cada vez mais atingir o autor que agiu de forma incoerente com a opinião do senso comum. Isto é, a incoerência se apresenta a medida que o cancelamento deixa de proporcionar o diálogo sobre a temática do problema, para exercer um tipo de justiça social que exclui o outro. Exemplificando essa tese, tem-se um episódio da série “Black Mirror”, na “Netflix”, em que, usuários por meio das redes sociais detiam o poder de julgar uns aos outros e no fim, tais réus eram exterminados do convívio social, ou seja, além da ficção o perigo desse tipo de condenação no vida real está em não conceder ao sujeito cancelado direito de mudança e reconhecimento do erro.
Em segundo lugar, sabe-se que a pessoa cancelada sofre extrema pressão psicológica quando passa a ser exposta pela sociedade. Sob a perspectiva filosófica que Thomas Hobbes defendeu: “O homem é o lobo do homem”, entende-se que a raíz do problema do cancelamento surge quando os erros passam a definir o cancelado, e ele passa a ter medo do seu semelhante. Atrelado à ameaça de morte e agressão física sofridas quase sempre de maneira online, vítimas e família (também vítimas da cultura do cancelamento), desenvolvem doenças como depressão e ansiedade, perpetuando dessa forma um ciclo degenerativo na sociedade contemporânea.
Em suma, para que as problemáticas relativas à cultura do cancelamento sejam minimizadas, são necessárias mudanças. Por isso, o Ministério da Educação deverá incluir ao Parâmetro Curricular Nacional uma displina que trate das questões de saúde mental, bem como a importância do acompanhamento psicológico, e do respeito às diferenças a fim de que a cultura do cancelamento sirva apenas para gerar debates sobre temas importantes e não em cancelar pessoas como ocorreu com a cantona Karol Conká.