Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 02/09/2021
“Arre, estou farto de semideuses, onde é que há gente no mundo?”. Esse trecho da obra “Poema em linha reta” de Fernando Pessoa pode fazer alusão ao grau de perfeição que é sempre mostrado nas redes sociais. Tal comportamento impõe intolerância ao erro, intensificando a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea, podendo causar problemas mentais no indivíduo e instauração do medo.
Em primeira análise, é notório o quanto a busca constante pela perfeição estimula a cultura do cancelamento, uma vez que é estabelecida a impossibilidade do erro, gerando severos julgamentos quando isso acontece. Essa assertiva pode ser concatenada à visão de Chul Han na “Sociedade do Desempenho”, a qual atesta a necessidade contemporânea do indivíduo de mostrar sempre estar seguindo todos os padrões impostos na sociedade, sofrendo grande pressão no meio quando comete algum “erro”. Isso ainda pode ser associado à “Sociedade do Controle” de Deleuze, a qual caracteriza a internet como substituta das instituições, ditando as regras e controlando tudo o que cada usuário faz. Dessa forma, o ambiente atual, de grande desenvolvimento das redes sociais, é muito propício ao surgimento dos “juízes da internet”, o qual estabelecem severas críticas e penalidades às pessoas que cometeram algum simples erro cotidiano.
Em segunda análise, é perceptível que tal intensificação da cultura do cancelamento na contemporaneidade causa problemas mentais no indivíduo, visto que esse passa a ter que lidar com julgamentos e pressões constantemente. Tal afirmativa pode ser retratada por meio do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, em que um dos jovens, não conseguindo lidar com a arbitragem social, desenvolve depressão e comete suicídio. Além disso, percebe-se a instauração do medo, já que as pessoas, receosas de serem torturadas psicologicamente e canceladas, passam a não mostrar suas faces reais para a comunidade, se escondendo sempre e se acomodando. Esse cenário é ligado ao comportamento da população diante de regimes totalitários, a exemplo da Ditadura Militar no Brasil, em que muitos se calaram por medo de serem excluídos do meio e torturados por pensarem diferente.
Portanto, é evidente a intensificação da cultura do cancelamento na contemporaneidade devido à impossibilidade do erro, gerando distúrbios mentais e medo na sociedade. Dessa forma, é fulcral que a família, principal formadora de valores, forme indivíduos tolerantes e que saibam ensinar, ao invés de julgar, por meio de orientações e conversas no meio familiar, para que o erro seja normalizado no meio social. Ademais, é importante que a escola, principal formadora educacional, prepare as pessoas para os possíveis julgamentos que elas possam receber, a partir de aulas de formação humana, a fim de ter um menor desenvolvimento dos problemas na mente por causa da tortura psicológica exposta.