Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 06/09/2021

Na série “Black Mirror”, o episódio “Queda Livre” mostra uma realidade distópica em que os habitantes de determinada cidade podem avaliar as ações do outro e se forem consideradas erradas geram consequências sociais. Fora da ficção, no Brasil contemporâneo, a cultura do “cancelamento” está presente em diversos cenários da sociedade e é responsável por diversas problemáticas. Nesse contexto, está atrelada ao ato de julgar os indivíduos de forma punitivista, o que gera problemas relacionados à saúde mental dos punidos.

Em primeira análise, é imperioso destacar que a prática de “cancelar” surge com o propósito de romper com a estrutura de poder que protege pessoas privilegiadas na sociedade, entretanto, é executada de forma incorreta. Já que reproduz uma lógica repreensiva ao julgar o outro por um erro, muitas vezes originado de uma ignorância, não permitindo, assim, a possibilidade de avanço pessoal do indivíduo que cometeu o erro. Segundo Voltaire, filósofo francês, o ser humano é falível e a tolerância é o caminho para superar o erro. Sob tal ótica, é necessário que o julgamento das atitudes seja feito de forma tolerante, uma vez que o homem não deve ser privado da possibilidade de evoluir. Logo, torna-se necessário que as famílias orientem as crianças sobre a importância do erro para a construção de um caráter menos ignorante, gerando o respeito.

Outrossim, o ato de julgar o outro de forma intolerante gera problemas sociais e mentais no indivíduos. Nessa conjuntura, os cidadãos que pelo fato de errarem são acometidos por agressões, podem desenvolver problemas pessoais, como a necessidade de isolamento, reflexo do medo de serem julgados, e, em casos mais graves, desenvolver doenças, como a depressão, advinda da sensação de de que as suas relações com as outras pessoas vão ser pautadas no erro cometido.

Urge, portanto, que medidas sejam tomadas para mitigar essa problemática no país. Torna-se imprescindível que o Ministério da Educação promova debates periódicos, ministrados por especialistas, nas escolas, a fim de instruir os alunos acerca dos riscos de julgar o outro para a saúde mental. Ademais, cabe à mídia, por meio de propagandas de cunho nacional, propagar pensamentos semelhantes aos de Voltaire, com o objetivo de reforçar a necessidade de respeitar a possibilidade de evolução dos indivíduos. Assim, tais medidas visam minimizar o impasse de forma democrática.