Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 04/09/2021
No livro “Utopia”, do escritor Thomas Moore, é retratada a ideia da sociedade perfeita, isenta de conflitos. Entretanto, quando se observa a realidade, percebe-se que são grandes os conflitos, sobretudo quando envolvem meios de grande mobilização, como as redes sociais. Baseado nisso, hoje, há um debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea, sendo uma forma de “fazer justiça” com um massacre virtual. Isso acabou acarretando os seguintes problemas: fomento ao discurso de ódio e afronto à dignidade humana do outro.
De início, destaca-se que a cultura do cancelamento se tornou um verdadeiro “campo minado” virtual, o qual várias pessoas atacam outras por algo sem dar a chance de defesa, gerando uma naturalização do discurso de ódio como justiça, o que é grave. No livro da escritora Hannah Arendt, “Banalização do mal”, é feita uma análise crítica sobre a normalização de práticas ruins em determinado contexto e como isso impacta nas relações sociais (geralmente de maneira mais agressiva e intolerante), sendo isso muito similar ao que acontece com a opressão coletiva no cancelamento. Diante disso, é possível perceber que o meio social passa por uma ruptura de algo que foi muito trabalhado ao longo do tempo, o respeito à individualidade do outro e ao pluralismo de ideias e valores existentes.
Ademais, em uma das Quatro Liberdades do monumento de Roosevelt, todo cidadão tem direito à liberdade de expressão e isso é uma forma de garantir a singularidade do indivíduo. Nessa linha de raciocínio, percebe-se que tal liberdade é afrontada, uma vez que os “juízes” das redes sociais não respeitam isso, julgam de maneira alienada, violenta, e extremamente desrespeitosa, não permitindo uma possível explicação ou ressalva, o que dificulta as relações sociais e corroboram os conflitos. Dessa maneira, o costume de cancelar alguém em um meio digital é algo muito grave, pois afronta um dos maiores preceitos das organizações humanas, a dignidade.
Do exposto, constata-se a significativa importância de acabar com essa cultura do cancelamento na sociedade contemporânea. Assim, o Estado deve promover atividades que instruam e estimulem a ação de não distribuir o discurso de ódio nas mídias, por meio de ações eficientes e de grande alcance social, como comerciais em canais abertos de televisão e palestras em espaços públicos, a fim de desnaturalizar as práticas ruins no cotidiano. Além disso, os sistemas judiciários, responsáveis por garantir e defender os direitos individuais, devem ampliar seu poder de punição sobre aqueles que propagarem ódio na internet, por intermédio da ampliação das suas leis, com a finalidade de garantir a dignidade humana de todos os cidadãos.