Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 05/09/2021
No filme “Ele é demais”, a personagem Padget é uma influenciadora digital que, após uma humilhação pública nas mídias sociais, perde seguidores, patrocínios e sua credibilidade. Fora da ficção, é fato que essa realidade, relacionada à cultura do cancelamento, também ocorre no Brasil e afeta negativamente a vida dos envolvidos. Nesse sentido, a problemática supracitada ocorre devido à inviabilização de defesa e à trivialização do linchamento virtual.
Em primeiro lugar, vale ressaltar que a cultura do cancelamento hodierna priva os afetados de explanarem suas versões. A esse respeito, no livro do século XIX “Dom Casmurro”, escrito por Machado de Assis, Bentinho acusa Capitu, sua esposa, de traição sem a mínima abertura para os argumentos da cônjuge. De forma paralela, a sociedade contemporânea julga as atitudes das pessoas no âmbito virtual e desconsidera as distintas versões individuais, o que perpetua uma visão única da história e impossibilita outras vertentes, embora estas sejam as verdadeiras, visto que a arbitragem populacional é direcionada à vertente de maior disseminação. Dessarte, constata-se a importância de elevar o espaço comunicativo destinado ao esclarecimento dos envolvidos em um linchamento midiático.
Ademais, a repetição excessiva dos cancelamentos informacionais gera uma naturalização dessas ações nocivas. Nesse contexto, segundo a filósofa Hannah Arendt, a normalização do mal acontece em razão de atos irrefletidos e corriqueiros. Sob esse viés, verifica-se que a popularização dos linchamentos digitais engendrou uma cultura baseada no discurso de ódio e na desqualificação do indivíduo, visto que a frequência exacerbada contribui para a relativização de algo tão extremo quanto a anulação de um ser humano referente a erros banais. Sendo assim, fica evidente a premência de evitar a proliferação de apedrejamentos eletrônicos.
Portanto, medidas são necessárias para mitigar a cultura do cancelamento na civilização atual. Diante desse fito, urge que as grandes empresas midiáticas, como Instagram e Twitter, por meio da elaboração de um termo de responsabilidade obrigatório, estabeleçam normas de boa conduta em suas respectivas plataformas. Nessa lógica, tais regras deverão promover espaços virtuais que apoiem explanações verídicas e proibir ofensas, falácias e difamações, a fim de suprimir os linchamentos informacionais. Dessa forma, espera-se manter a situação vivenciada por Padget tão somente no plano cinematográfico.