Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 05/09/2021

A Revolução Técnico-Científico-Informacional, decorrida durante o século XX, redimensionou a estrutura organizacional da informação e da comunicação com a inserção do fenômeno digital na vida cotidiana do novo milênio. É notável, no entanto, que, apesar de possuir indubitáveis benesses, esse cenário revolucionário se apresenta, na contemporaneidade, com um lado obscurantista: a cultura do cancelamento nas redes sociais. Sendo assim, torna-se fundamental refletir sobre a origem e a principal projeção social do problema para a gama de usuários brasileiros do século XXI.

Para entender, a princípio, o que motiva a cultura do cancelamento modernamente, faz-se primordial, antes de tudo, ir ao século XX e resgatar o livro “Vigiar e Punir” do filósofo francês Michel Foucault. Com efeito, embora a obra tenha sido produzida sob demanda de crítica aos governos totalitários, os quais operavam com um sistema de vigília social que conduzia à punição,  pode-se traduzi-la ao mais atual contexto, porquanto os cancelamentos virtuais são o reflexo expressivo de uma estrutura social que, semelhantemente, vigia e pune. Nesse sentido, é constatável que a tendência de controle sociocomportamental, já presente na história da humanidade, apenas se serviu do advento virtual como terreno fértil para a consolidação de uma conjuntura de polarização extremista expressa, justamente, na conduta desmedida dos canceladores.

Consequentemente, da cultura do cancelamento emergem diversos problemas sociais para os usuários digitais brasileiros, dos quais se destaca a fragilização da saúde mental. Esse quadro é explicitado pelo intérprete contemporâneo Byung-Chul Han, o qual afirma que “assim como as doenças bacteriológicas e virais marcaram o século XX, são as patologias neurais que definem o século XXI, o que muito se relaciona com o mau uso da internet”. Desse modo, é prudente pontuar que a satisfação com o cancelamento, a sensação de poder do cancelador e a falta de empatia são, sem dúvida, fortes contribuintes para que a “sociedade do cansaço” se instaure no Brasil e, em um Estado já regido pelas instabilidades do subdesenvolvimento, culmine no posicionamento nacional em primeiro lugar no ranking global de ansiedade da Organização Munidal de Saúde.

Portanto, é necessária a mitigação da cultura do cancelamento. Em busca disso, o Ministério da Educação deve orquestrar as Secretarias Municipais de Educação a uma ação educacional conjunta, em todos os municípios brasileiros, que evidencie os prejuízos da cultura do cancelamento. Isso pode ser feito pela criação do “Projeto Nacional de Combate ao Linchamento Virtual”, o qual financiará seminários sobre o tema em escolas e espaços públicos, a fim de que a internet brasileira se torne, enfim, um ambiente mais salubre. Afinal, a “sociedade do cansaço” precisa ser remediada.