Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 07/09/2021

O episódio “Odiados pela Nação”, da série britânica “Black Mirror”, retrata uma sociedade futurística em que as pessoas que tenham recebido mensagens de ódio nas redes sociais são assassinadas por dispositivos robóticos. Fora da lógica televisiva, a trama serve de alerta para os perigos da cultura do cancelamento, isto é, a normalização do hábito de prejudicar reputações na internet. Diante disso, percebe-se que tal panorama traz duas graves consequências para a sociedade brasileira, a citar, o fortalecimento do sentimento de intolerância e a propagação de doenças mentais.

A princípio, a cultura do cancelamento dissemina padrões de comportamento intransigentes e fechados a opiniões distintas. Nesse sentido, segundo o sociólogo Sérgio Buarque, os brasileiros são “homens cordiais”, pois agem com base na emoção e tendem a impor vontades particularistas à coletividade, de modo a não aceitarem diferenças no modo de pensar e de se portar. Dessa forma, ações radicais nos ambientes online contra atitudes alheias apenas reforçam essa faceta do povo brasileiro e, como consequência, naturalizam a intolerância nas relações interpessoais.

Ademais, a pressão social gerada pelo julgamento excessivo nas mídias virtuais prejudica psicologicamente as pessoas, pois causa receio dos possíveis “linchamentos digitais” . Sob esse viés, o filósofo Byung Chul Han caracterizou o mundo contemporâneo como uma “sociedade do desempenho”, tendo em vista que há a constante cobrança por alta  produtividade e por comportamentos exemplares, fato que desencadeia uma tensão nos indivíduos - que acaba por ocasionar patologias neurais e sentimentos de frustração. Por conseguinte, a cultura do cancelamento corrobora essa sensação de que não é permitido errar e, assim, favorece o aumento de casos de transtornos mentais, a exemplo de quadros de ansiedade e de depressão.

Portanto, urge que a cultura do cancelamento seja combatida no Brasil. Assim, as empresas responsáveis pelas redes sociais devem mitigar a divulgação de mensagens de ódio em suas plataformas, por meio da introdução de canais eficazes de denúncia rápida, de modo a fazer com que as postagens ofensivas sejam apagadas e os usuários responsáveis por elas punidos com o bloqueio temporário de suas contas. Isso com o fim de se acabar com o ciclo online de agressões e intolerância.

Ademais, o Ministério da Saúde deve garantir o atendimento psicológico de todos os cidadãos que foram difamados na internet, a fim de preservar a saúde mental dos usuários de mídias sociais e evitar o agravamento dos quadros para transtornos psíquicos graves. Dessa maneira, a realidade representada em “Black Mirror” ficará restrita à ficção.