Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 07/09/2021

Na obra “1984”, do escritor George Orwell, a sociedade é controlada pelo Grande Irmão, o qual é responsável por vigiar os indivíduos e punir comportamentos desviantes. Apesar de ser uma distopia, percebe-se que, atualmente, a internet assumiu, de certa forma, o papel do “Big Brother” e tornou-se um mecanismo que permite fiscalizar as ações e confrontar atos considerados errados, principalmente por meio do cancelamento. Dessa maneira, é importante analisar como as mídias sociais promovem essa cultura e a influência dessas manifestações para a formação de uma população pautada no ódio.

Primeiramente, é necessário destacar que a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea representa uma forma de controle impulsionado  pelas redes sociais. Tal concepção baseia-se na teoria do filósofo Foucault, o qual afirma que o poder panóptico é responsável por vigiar de forma contínua e invisível os sujeitos e, assim, punir e corrigir os comportamentos desviantes. A partir disso, nota-se como essa ideia reflete a atuação do meio digital, o qual retira a privacidade e permite que os demais usuários monitorem e confrontem as ações consideradas erradas. Dessa forma, esse meio tecnológico, apesar de proporcionar a luta por direitos e o debate de temas importantes, como o preconceito, tornou-se um novo mecanismo de controle social e punitivo, pois permite que os indivíduos atuem como “juízes” e ataquem, muitas vezes de forma desproporcional, outros cidadãos.

Ademais, é válido ressaltar que a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea estimula a formação de uma população acrítica e hostil. Tal perspectiva está associada à teoria da filósofa Marcia Tiburi, a qual afirma que os indivíduos são movidos por uma “cegueira ideológica” que incita discursos de ódio e o fechamento ao outro. À vista disso, percebe-se como as manifestações virtuais contra determinados cidadãos retratam essa ideia, já que muitos usuários utilizam as plataformas digitais somente para atacar e ofender os “cancelados”, sem permitir um diálogo construtivo. Desse modo, essa nova forma de expressão social, utilizada de forma errada, proporciona a construção de uma sociedade mais intolerante, pois, ao invés de auxiliar os sujeitos fazendo críticas mais educativas e conscientes, as pessoas buscam apenas perseguir e cercear a liberdade do outro.

Logo, para que a cultura do cancelamento seja superada, as escolas. principais instituições formadoras dos indivíduos, devem construir uma população mais crítica, por meio de palestras com especialistas, como psicólogos, os quais debatam sobre a sociedade do ódio e o papel das redes sociais nesse mal, a fim de desenvolver a consciência e a empatia social. Ademais, a mídia deve combater essas ações, mediante a divulgação, nas principais plataformas, de relatos de pessoas que sofreram com esses ataques, para que, assim, os sujeitos percebam os prejuízos que podem causar.