Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 06/09/2021
O documentário “Vou te cancelei”, produzido pelo canal GNT, retrata o cancelamento e o linchamento virtual de pessoas, nas redes sociais, e, também, os impactos disso em suas vidas. Fora do documentado, observa-se que, na sociedade contemporânea, a atitude de cancelar o outro é cada vez mais recorrente e vem tornando-se mais agressiva e danosa. A partir desse viés, é válido analisar as motivações que levam ao cancelamento e os impactos na vida do indivíduo que sofre com esse ato.
A priori, é importante pontuar que o cancelamento consiste em uma forma de repúdio a atitudes que não são mais aceitas na sociedade atual, como preconceitos e intolerâncias, e é regido por um senso de justiça coletivo. Diante dessa perspectiva, nota-se que os indivíduos que praticam essa ação tentam limitar a atuação e o impacto dos comportamentos alheios pela imposição de uma “régua social” que mede as condutas de acordo com o senso individual, este que adquire força conforme os canceladores se identificam. Tal comportamento é evidenciado pelo filósofo Michel Foucault, na teoria da microfísica do poder: o poder está concentrado na rede que liga todos os indivíduos de um grupo por meio de saberes e discursos. Assim, os cidadãos, respaldam-se na disseminação de um mesmo regime comportamental para propagar as formas de cancelar o próximo.
Ressalta-se, ainda, que, pelo motivo da cultura do cancelamento estar misturada com uma onda de agressão e retaliação, as pessoas que são atacadas sofrem danos psicológicos e até físicos. Segundo o pensador Karl Popper, em seu paradoxo da intolerância, o ato de intolerar o intolerável de forma desmedida, leva a um perigo social. Dessa maneira, observa-se que se constitui uma sociedade que não sabe as limitações da atitude de cancelar e age de modo nocivo, o que atinge a integridade do outro. Assim, essa forma cultural prejudica as relações sociais e seu desenvolvimento, além de infligir sofrimento ao cidadão que é vítima desse fenômeno. Então, é preciso ensinar ao indivíduo qual o limite desse comportamento e a diferença entre o repúdio e a violência.
Nota-se, portanto, que é necessário um debate maior acerca da cultura do cancelamento na sociedade atual. Para tanto, é preciso que as coordenações de ensino pedagógico dos centros educacionais, em parceria com as secretarias da saúde municipal, promovam uma discussão a respeito desse fenômeno, com a participação ativa dos alunos e, também, com profissionais qualificados, como psicólogos e psiquiatras, a fim de gerar uma maior reflexão sobre o ato de cancelar o outro e das consequências que este sofrerá, sejam físicas ou mentais. Dessa maneira, poderá haver um meio social em que a cultura do cancelamento aconteça de uma forma menos nociva.