Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 07/09/2021
O filósofo francês Michel Foucault, em sua teoria “Microfísica do Poder”, tece que o poder está concentrado em uma rede de indivíduos, os quais dominam os saberes e discursos. Nas esferas digitais, essa teoria ganha força ao explicar a cultura do cancelamento, a qual grupos de pessoas nesse meio expõem, julgam e excluem - um linchamento virtual - alguém que agiu de maneira errada, como com falas preconceituosas. Essa situação se apresenta pela falsa sensação de liberdade no meio digital, o que ocasiona discursos de ódio, além de danos aos “cancelados”.
Em primeira análise, a falsa sensação de liberdade no meio digital é um fator que contribui para a cultura do cancelamento. Como exemplo disso, no documentário “Dilema das Redes”, da plataforma americana “Netflix”, é mostrado o lado obscuro das redes sociais, em como elas podem manipular o indivíduo, assim como são capazes de desencadear discursos de ódio a partir do anonimato. Esse é o responsável por passar uma errônea ideia de liberdade, na qual as pessoas disferem xingamentos e ameaças a outras. Nesse sentido, muitos internautas, em meio a uma situação de injustiça, se veem no direito de julgar o outro, como uma justificativa ao ato incorreto. Essa atitude ocorre em massa, fazendo diversos usuários das redes atacarem a outra pessoa que errou, o que ocasiona discursos de ódio e um linchamento virtual.
Em segunda análise, a cultura do cancelamento é responsável por causar danos ao indivíduo “cancelado”. Diante disso, na série coreana “True Beauty”, o personagem Kang Se-Yeon - um jovem cantor - acaba se suicidando após sairem notícias falsas que o artista cometia bullying e as pessoas começarem a xingá-lo e rejeitá-lo. Fora da ficção, situações como as apresentadas na obra estão presentes também na sociedade contemporânea, na qual as vítimas de um cancelamento sofrem com diversos danos ocasionados pelas ameaças e xingamentos, que vão desde sociais -de reclusão- até problemas psicológicos - como ansiedade, depressão e, até mesmo, suicídio.
Logo, torna-se necessária a participação do poder público para reverter a cultura do cancelamento nas sociedades contemporâneas. Inicialmente, o Poder Legislativo, em parceria com o Ministério da Tecnologia, deve promover a segurança no meio digital, por meio do fortalecimento de leis que punam pessoas que pratiquem xingamentos e ameaças nas redes sociais, com o intuito de assegurar o bem-estar coletivo, assim como impedir o linchamento virtual. Além disso, o Ministério da Saúde deve garantir a saúde mental de vítimas de cancelamento, a partir do oferecimento de tratamento gratuito com psicológicos, em postos de saúde, com o fito de acolher e tratar sequelas que impedem o desenvolvimento desses indivíduos.