Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 06/09/2021
A Revolução Técnico-científico-informacional, a qual entrou em vigor na segunda metade do século XX, proporcionou a rápida propagação de informações e a agilidade das comunicações, ou seja, promoveu a integração global. Nesse viés, devido a essa integração, na Era Digital, grande parte das opiniões e atitudes dos indivíduos são expostos nas redes sociais e, consequentemente, são passiveis de “cancelamento”. Dessa maneira, é imprescindível analisar o cancelamento como ferramenta de justiça social, bem como a naturalização dessa questão como geradora de tolhimento de direitos.
Em uma primeira abordagem, deve-se falar que, segundo o filósofo grego Aristóteles, “a base da sociedade é a justiça”. Nesse sentido, na sociedade contemporânea, ideais e atitudes, sobretudo de empresas e pessoas públicas, são constantemente compartilhados na internet. Contudo, muitos dessas informações pessoais expostas prejudicam o corpo social ou denigrem a imagem de indivíduos. Nesse contexto, no Brasil, os donos dessas informações são “cancelados” na internet, ou seja, possuem seus perfis nas redes sociais boicotados pelos cidadãos como forma de justiça. A exemplo disso, há o cancelamento midiático, em 2020, da “influencer” digital Gabriela Pugliesi por desrespeitar quarentena durante o contexto Covid-19. Diante disso, a internet vira um “tribunal”, o qual diminui a visibilidade de famosos como forma de “punição” e chama da população sobre as causas sociais do cancelamento.
Em uma segunda análise, deve-se dizer, ainda, que, conforme a Constituição de 1988, todo cidadão brasileiro possui o direito de divulgar o pensamento sem ser censurado. Nesse cenário, todas as pessoas podem falar o que quiserem nas redes sociais, mas podem ser criticadas e “julgadas” por suas palavras. Contudo, a cultura do cancelamento é um problema no Brasil, pois simples atitudes, como não gostar de um filme, podem gerar a exclusão de indivíduos da mídia. Prova disso é a escritora Lilia Schwarcz que perdeu muitos seguidores em suas redes digitais por criticar o novo álbum da cantora Beyoncé. Diante desse fato, os cidadãos não postam seus pensamentos na internet pelo medo de serem cancelados por possuírem opiniões divergentes da massa digital e, por isso, têm seus diretos tolhidos indiretamente pela naturalização dessa questão.
Portanto, a cultura do cancelamento é uma realidade presente no Brasil. Assim, é necessário que o Ministério da Educação desestruture a naturalização dessa questão. Essa ação deve realizada por meio da criação de um programa escolar, o qual deve utilizar as aulas de sociologia e de filosofia para contemplar a importância da liberdade de opinião. Dessa forma, em uma sociedade integrada globalmente, o cancelamento só ocorrerá em atos de justiça social, permitindo que os brasileiros exponham suas opiniões, que não prejudiquem o corpo social, sem medo de serem excluídos.