Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 07/09/2021
“Aos que sofrem, por fim o céu abranda a raiva”, diz a música “Fracasso”, da cantora Pitty. A passagem pode, também, ser comparada à questão do cancelamento, na medida em que aqueles que promovem a prática condenam outras pessoas a uma morte social. Sobre o tema, pode-se apontar que essa cultura é reflexo da frágil construção de reputações “on-line”, bem como que é maneira de famosos esconderem-se de críticas.
Inicialmente, deve-se observar como funciona a fama de pessoas na internet. Conforme o filósofo Zygmunt Bauman, o século XXI é marcado pela vida líquida, ou seja, relacionamentos frágeis e sem profundidade. Nesse ímpeto, ocorre que a sociedade torna pessoas famosas virtualmente de maneira muito rápida, sem realmente saber de quem se trata. Quando surge, pois, alguma informação desagradável sobre o indivíduo agora conhecido, os que há pouco o seguiram passam a promover o chamado cancelamento, mudando drasticamente a ideia a pessoa tida, ainda sem conhecer o agora cancelado. É uma reflexão da liquidez descrita por Bauman: anônimos vão de famosos a odiados rapidamente.
Ademais, muitas vezes o termo “cancelamento” é uma maneira de famosos esconderem-se de críticas devidas na internet. O geógrafo Milton Santos afirma que a globalização é, também, a reprodução de modelos de desigualdade em outros planos. É o que pode ser visto nesse caso: em vez de reconhecer que estão erradas, celebridades, geralmente ricas, preferem dizer que estão sendo canceladas e jogar de volta a posição de incorreto para quem critica, que é anônimo e está numa posição desfavorecida.
Portanto, faz-se necessária medida mitigadora da problemática. Propõe-se, então, que o Ministério da Educação, por meio de portaria ministerial, inclua na Base Nacional Comum Curricular o ensino de noções de comportamento “on-line”, integrado com Filosofia e Sociologia. Dessa maneira, poder-se-á ter a dimensão social, bem como a reflexão do que significa tornar pessoas famosas indiscriminadamente na internet, de modo a desmontar o que se torna a chamar de cultura do cancelamento.