Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 07/09/2021
Durante a Idade Média, pessoas eram condenadas à morte por serem consideradas bruxas, ou seja, por supostamente não seguirem à risca os dogmas religiosos da época. As sentenças eram dadas por religiosos que não buscavam os fatos e estabeleciam juízos de valor baseados em achismos. Assim como na era medieval, o julgamento livre continuou comum até hoje e ganhou ainda mais força com o advento da internet, que muitas vezes é uma terra sem lei onde as pessoas se sentem poderosas a ponto de falar o que pensam da forma que querem, cancelando qualquer um pelo mais ínfimo motivo. Nesse sentido, cabe discutir a efetividade real da cultura do cancelamento, bem como suas consequências para a atual sociedade.
Primeiramente, em um mundo onde se luta constantemente por igualdade e respeito às diferentes opiniões, a cultura do cancelamento pode, em certos casos, se tornar um meio de segregação e disseminação de ódio gratuito, e não uma ferramenta pedagógica para o bem. Isso porque a internet, principalmente ela, acabou virando uma enorme prisão, onde há uma extrema vigilância e imposição de condutas. Esse conceito foi primeiramente descrito pelo filósofo Michel Foucault em 1975, mas bem se aplica aos dias atuais, pois essa detenção é a vida em sociedade e as pessoas são os carcereiros, prontos para punir os detentos por qualquer infração. Além disso, a vida dos fiscais de comportamento alheio muitas vezes acaba não sendo exatamente um exemplo de moral, e isso leva à perda de força das reivindicações por eles feitas, mesmo que estas tenham uma base justa.
Em segunda análise, o cancelar deliberado, comum na internet e na vida, acaba trazendo consequências sérias para as pessoas alvo desse processo, mais ainda se elas são vítimas sem um motivo justo. A exemplo disso, a polarização política no Brasil atual faz com que seja quase um crime a exposição pública de uma vertente ideológica sem que a pessoa que o faz sofra retaliação de grupos opositores. Esse comportamento torna-se perigoso no momento em que, como classifica a psicologia, pode causar ansiedade, sofrimento psíquico e medo nos indivíduos, e isso só prova o imediatismo muitas vezes fraco da cultura do cancelamento.
Sendo assim, para que a cultura do cancelamento atue como um método pedagógico, são necessárias medidas por parte de órgãos competentes. Para isso, cabe ao ministério da cidadania, monitorar os discursos, mas sem prática de censura. Isso deve ocorrer com o estabelecimento de um canal de comunicação e denúncias, para que atitudes de internautas possam ser devidamente vistas e punidas quando necessário. Dessa forma, os comportamentos abusivos dos canceladores serão freados e o convívio em sociedade melhorará, de modo que ela não se torne um grande tribunal inquisidor.