Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 07/09/2021
“Arre, estou farto de semideuses!”. A frase faz parte do poema “Em linha reta”, do escritor português Fernando Pessoa e traz uma crítica ao mundo de aparências da contemporaneidade, em que os indivíduos são idealizados como seres perfeitos. Saindo do tablado poético, percebe-se, na sociedade brasileira, uma cultura de cancelamento, a qual se constitui por um conjunto de pessoas que procuram julgar ações de sujeitos comuns e, principalmente, de celebridades. Nesse sentido, convém analisar como essa noção se consolidou, bem como os impactos causados por ela.
Em primeiro plano, é válido que destacar que o advento da Revolução Técnico-científico-informacional, ocorrida no século XX, alterou profundamente as formas de comunicação. Com isso, as redes sociais foram desenvolvidas com o propósito de gerar uma interação maior entre pessoas com pensamentos díspares e de diversos lugares. No entanto, a busca pela perfeição que ocorre nos dias atuais propiciou uma deturpação da visão acerca da mídia social, que passou a ser como um tribunal onde são analisadas as atitudes dos usuários. Dessa forma, o cancelamento é um ataque à reputação do envolvido, como o caso da cantora Karol Conká, que foi fortemente repudiada ao tecer comentários infelizes no Big Brother Brasil. Sob essa óptica, essa ação pode ser percebida como uma forma de opressão, em que pessoas comuns se veem como sujeitos que detêm o poder de punição.
Em segunda análise, cabe salientar que, segundo o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, os brasileiros são “homens cordiais”, pois são empáticos e agem de modo passional. Nesse viés, ações punitivas em redes sociais contra comportamentos alheios demonstram que a teoria do intelectual não condiz com a realidade da sociedade brasileira. Além disso, a cultura do cancelamento dissemina padrões de comportamento intransigentes e fechados a opiniões distintas. Desse modo, esse tipo de exclusão social dirigida às pessoas “canceladas” resultam em graves circunstâncias, como prejuízos morais e mentais, tendo em vista que o “homem é um ser social”, consoante o filósofo Aristóteles, e necessita de interação com os seus semelhantes para se sentir integrado àquela comunidade.
Portanto, fica clara a importância do debate sobre a cultura do cancelamento e uma medida pode ser tomada para resolver tal impasse. Sendo assim, o governo federal, por meio de campanhas publicitárias que exponham informações a respeito desse modo de se posicionar, deve instruir as pessoas acerca da importância de agir com empatia e tolerância em casos de divergência de opiniões nas redes sociais, com o intuito de educar de forma coerente os indivíduos sobre o assunto em questão. Assim, a frase exclamada por Fernando Pessoa poderá não ser uma problemática da realidade e ficar apenas no plano poético.