Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 14/09/2021

A aclamada série britânica “Black Mirror” retrata, no epiódio “Odiados pela nação”, a realidade de usuários que fazem uso da internet para propiciarem a exposição negativa de pessoas que, supostamente, cometeram determinados equívocos. Na narrativa, devido às difamações, os afetados passam por um dificultoso processo de ressocialização. Fora da ficção, observa-se, no mundo hodierno, a existência da cultura do cancelamento no meio virtual, que é ocasionada tanto pela intolerância do corpo social a posicionamento divergentes, quanto pela falta de credibilidade da população nas vítimas.

Deve-se destacar, primordialmente, a falta de aceitação do pluralismo de idealismo âmbito cibernético. Acerca disso, o filósofo estadunidense John Rawls, em seus estudos sobre a justiça, afirmou que uma sociedade, para ser justa, deve ter a capacidade de tolerar, caso contrário, a sociedade seria então considerada intolerante e, portanto, injusta. Contudo, a máxima do pensador vai de encontro com o comportamento da população em relação às vítimas da cultura do cancelamento, dado que, uma vez que se posicionam, são duramente criticadas por aqueles que discordam do que foi afirmado. Logo, tais comportamentos evidenciam, infelizmente,uma sociedade que necessita de uma reformulação imediata.

Ademais, a resistência da população à escuta dificulta o processo de ressocialização. Para o poeta português Fernando Pessoa, um livro em que muitos  escrevem, torna-se sem credibilidade. De maneira análoga a esse pensamento, os julgamentos de juízo de valor, feitos por diversas pessoas no que concerne às vítimas da cultura do cancelamento, corroboram a perda da influência dos atingidos. Nesse sentido, o povo passa a demonstrar desinteresse para escutar e, por conseguinte, a vítima não consegue apresentar defesa, o que suscita a dificuldade de tais indivíduos para a integração no meio social.

Torna-se evidente, portanto, a necessidade de minorar os impactos da cultura do cancelamento. Para tanto,urge que a UNESCO, órgão de ascendência mundial, com o fito de mitigar os conflitos entre a cultura do cancelamento e a ressocialização dos cidadãos, realize, por intermédio das unidades educacionais de cada país, campanhas educativas que expliquem e exemplifiquem o comportamento adequado na internet, de modo que os estudantes se tornem capazes de tolerar opiniões opostas e estejam sempre abertas à escuta. Desse modo, atenuar-se-á o avanço do problema, e as exposições negativas, frequentes no episódio da série “Black Mirror”, irão se restringir à ficção.