Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 25/09/2021
O filósofo argelino Jacques Derrida afirma que a sociedade moderna é uma sociedade que se fundamenta na afirmação de diferenças, sejam elas de classe, etnia ou gênero, apostando na hospitalidade por parte da comunicação como um dos mecanismos para a ‘‘desconstrução’’ dessas diferenças. Nesse cenário contemporâneo, estranha seria a reação de Derrida, se deparando com uma cultura onde não há espaço para redenções e os erros (ou simplesmente discordâncias) são compartilhados em escalas tão longas quanto as trajetórias das informações em rede, gerando o debate sobre quais seriam os verdadeiros limites do tribunal da internet, diante de condições políticas e sociais.
Em primeiro plano, o fenômeno do cancelamento pode ser explicado com a ideia de moral cínica do filósofo alemão Peter Sloterdijk, onde as conquistas de movimentos progressitas da modernidade passam a ser na pós modernidade parte do statuos quo, objetos incapazes de serem criticados (ante ao que seus apoiadores defendem) dos quais toda posição contrária a estes objetos (seja ela consciente ou não) é passível de total destruição sem espaço para debate, convencimento ou redenção. O poder público dentro desse cenário pouco se dispõe a fazer porque essa polarização do ‘‘certo’’ e do ‘’errado’’ pode ou ser mascarada dentro do princípio de que moralismos não são alvos de regulação, ou ser beneficiária para corpos políticos dotados de intenções malciosas e oportunistas no poderio público democrático de eleições que intensificariam o quadro de polarizações com pessoas contra pessoas, alienadas dos reais agentes causadores dos problemas estruturais.
Em segundo plano, também o cancelamento reverso, onde o progressismo moderno é o alvo. Um belo exemplo pode ser dado pela campanha de perseguição contra a blogueira e professora da UFC Lola Aranovich, que passou a ser difamada pelo fórum da darkweb doggolochan com ataques que iam desde a divulgação de seu endereço pessoal na internet até a implantação de pornografia infantil no computador de seu marido, um caso que mesmo grave só gerou a prisão de um dos agentes do crime (somente porque ele já deveria responder por outras acusações).
Portanto, o ministério público – instituição de autoridade do país – deve, por intermédio de um acordo assinado, buscar a mitigação do problema com mais rígidas fiscalizações de redes sociais, podendo contar até mesmo com o apoio dessas próprias redes atravém de campanhas conjuntas que envolvam participantes da sociedade civil usuários de internet. É esse o único jeito de se conquistar um ambiente virtual sem discursos de ódio e injustiças, privilegiando a socialização.