Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 29/09/2021
Em textos como ‘’Dom Casmurro’’ e ‘’Memórias Póstumas de Brás Cubas’’, Machado de Assis apresenta o ser humano como um animal de tendência à falha e se mostra indulgente quanto a isso. Contrariando o célebre escritor, porém, a atual cultura do cancelamento não perdoa erros e aplica uma punição ineficaz àqueles cujas ideias divergem da maioria, além de flertar com medidas antidemocráticas.
Em primeiro lugar, percebe-se que o ato de cancelar está relacionado à coerção de pensamentos destoantes dos que circulam comumente na internet, com o desejo de perpetuar as ideias dominantes. Esse método, não obstante, é ineficaz, conforme ilustrado no livro ‘’O Estrangeiro’’, do escritor Albert Camus. Nessa obra, o protagonista, a despeito de ter cometido um homicídio, é julgado majoritariamente por aspectos ideológicos, como sua descrença em Deus. Porém, mesmo após ter sido sentenciado à pena de morte, o criminoso não muda o seu pensamento, o que aponta para a falta de eficiência das punições, como o cancelamento, na tentativa de perpetuar uma ideia hegemônica.
Além de essa coerção de pontos de vista não atingir os objetivos almejados, ela flerta com pontos antidemocráticos, como a censura. De forma análoga ao que ocorreu durante a Ditadura Civil-Militar no Brasil, na qual o governo monitorava o conteúdo das produções culturais a serem publicadas, a cultura do cancelamento também tenta perpetuar apenas o seleto grupo de ideias com as quais concorda e excluir as outras de circulação, fato nocivo para a democracia, que deve se pautar, sobretudo, na pluralidade de opiniões para um bom funcionamento. Logo, o ato de cancelar representa um retrocesso no desenvolvimento da nação.
Portanto, é evidente que a cultura do cancelamento é inclemente e ineficaz ao julgar os indivíduos com base em suas ideias e que anda na contramão da democracia. Por isso, é imprescindível que as instituições de ensino, por meio do estudo de livros como ‘’O Estrangeiro’’, proponham um debate entre os alunos acerca dos melhores caminhos para se mudar o pensamento de outras pessoas, os quais chegarão à conclusão de que o cancelamento não é a melhor opção nesses casos. Em seguida, esses estudantes deverão compartilhar esse pensamento com familiares e amigos, de modo a criar um ambiente que, por ser mais indulgente com os erros, orgulharia Machado de Assis.