Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/10/2021

O autor José Saramago, em seu livro Ensaio sobre a cegueira, faz uma crítica reflexiva a falta de empatia contemporânea por meio de uma analogia em que o mundo é atingido por uma doença contagiosa que cega completamente as pessoas. Fora da ficção, parece existir no Brasil uma cegueira semelhante - não física como a retratada na obra, mas moral -, uma vez que, com a cultura do “cancelamento” indíviduos “cancelam” outros através de boicotes e exposições vexatórias por não concordarem com determinados comportamentos ou opiniões. Assim, para que seja possível mitigar esse cenário caótico, é essencial entender sua perpetuação e como ele pode gerar consequências na vida dos impactados injustamente.

Nesse contexto, vale compreender como o  “cancelar” tornou-se realidade no Brasil. Seguindo essa lógica, para o filósofo Immanuel Kant, o ser humano age conforme suas máximas, isto é, de acordo com o seu juízo particular. Nesse sentido,  ao pensar apenas pelo próprio ponto de vista, o “cancelador’, imbuído de poder, enxerga e sustenta a ideia de que o outro, que não faz parte do seu ideário, merece ser corrigido e “cancelado”. Dessa maneira, tal prática é diretamente estimulada por essa visão e isso faz com que o “cancelamento” continue presente no país.

Ademais, é válido ressaltar que esse hábito pode acarretar consequências àqueles que foram “cancelados”. Sob esse raciocínio, a grande maioria dos “cancelamentos” são veiculados na internet e essa, por ter imenso alcance através da rapidez em que ocorre o compartilhamento de notícias, serve para eternizar tais manifestações punitivistas, o que dificulta a desassociação da pessoa ou grupo ao ato considerado errôneo. Com efeito, isso gera na vida dos “cancelados’ danos tanto psicológicos, como a depressão, quanto sociais. Exemplo disso é o caso do americano Emmanuel Caffetty que, ao ser confundido com um supremacista branco, foi linchado virtualmente nas redes sociais e demitido sem direito a se explicar pelo mal entedido. Logo, fica evidente que o “cancelamento” pode provocar impactos negativos, principalmente quando ocorre de modo desenfreado.

Infere-se, portanto, que há, de fato, uma cegueira moral no Brasil em relação aos “cancelamentos”. A fim de minimizar esse fenômeno e seus desdobramentos, é necessário uma intensa mobilização social, sobretudo no ambiente virtual. Para isso, as pessoas que foram vítimas e sentem-se lesadas por tal prática devem, por intermédio de depoimentos, compartilhar suas histórias em seus perfis nas redes sociais. Essa ação fará com que essas pessoas tenham o direito de se explicar e auxiliará o exercício de empatia coletivo.