Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 19/11/2021
“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles.” Nessa concepção, a afirmação atribuída à filósofa francesa Simone de Beauvoir é claramente aplicável à situação da cultura do cancelamento na sociedade, ao considerar que mais danosa que sua ocorrência é a indiferença da população perante a questão. Desse modo, a internet virou um palco para a exposição das maiores barbaridades humanas: intolerância, desrespeito e ódio, algo grave que precisa ser urgentemente combatido. Com efeito, há de se deliberar como o modesto controle estatal e a insuficiência de normas legislativas têm influência na questão.
Diante desse cenário, a falta de políticas públicas é uma das principais causas do problema. A esse respeito, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na sua obra “Globalização e consequências humanas”, disserta que a sociedade caminha para uma desordem mundial, causado, sobretudo, pela falta de controle do Estado. Nessa visão, a falta de políticas públicas eficientes no combate ao comportamento de muitos internautas, reflete a fragilidade da democracia brasileira. Por conta disso, a injustiça consiste em uma das maiores consequências desse cenário, uma afronta aos preceitos de um Estado Democrático de Direitos: a dignidade da pessoa humana. Diante disso, é impreterível uma eficaz atuação do Estado no combate desse crime.
Ademais, em segundo plano, a falta de uma legislação específica figura outro desafio. Acerca disso, o filósofo Cícero disserta de ser a impunidade a melhor forma de perpetuar a injustiça. Nesse sentido, milhares de brasileiros são vítimas dos discursos de ódio e de intolerância na internet, haja vista que são escassas as formas de controle e de monitoramento desse tipo de situação, o que tem dificultado ainda mais o seu real combate. Por conseguinte, uma estratégia bastante utilizada por esses contraventores é o uso de perfil “fake” que dificulta a localização da sua real identidade. Assim, é urgente a criação de um mecanismo capaz de combater um dos maiores males da atualidade: a cultura da impunidade nos ambientes digitais.
É mister, portanto, que esse cenário seja combatido no Brasil. Para tanto, o Congresso Nacional - instituição responsável pela criação e aplicação da lei - deve, por meio de um plenário na câmara, submeter a discussão e a votação de um projeto de lei denominado “Desconstrução da cultura do cancelamento”, para que essa prática seja combatida com a força da lei. Essa medida terá por objetivo tipificar como crime a cultura do cancelamento, para assegurar os preceitos da democracia. Feito isso, o cancelamento na sociedade deixará de ser, conforme delata Beauvoir, um escândalo.