Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 07/10/2021
De acordo com a Teoria Freudiana, a felicidade seria, em sentido estrito, aquilo que momentaneamente é responsável por um prazer efêmero no ser humano. Analogamente à isso, o cancelamento trata-se de uma atitude de justiça moral que confere aos praticantes a sensação de plenitude em vista de uma atitude considerada eticamente inadequada ao convívio daquele grupo. Nesse sentido, é indubitável a compreensão de como esse linchamento social ocorre e o combate de seus efeitos, entre os quais destacam-se: a relativização do conceito de justo e a crescente ruptora de valores coletivos.
Constata-se, a princípio, que a a generalização de práticas incriminatórias de cunho social tem se tornado comum na sociedade brasileira. Segundo a filósofa contemporânea Hanna Arendt, a banalização do mal acontece por meio de atitudes humanas quando são capazes de relativizar a prática de um mal para combater outro. Nessa perspectiva, o sentença social que vem ocorrendo, principalmente em redes sociais, é reflexo de uma atitude negacionista que opta por crer erroneamente que somente terceiros estão fadados a cometer erros, muito embora isso não condiga com essência humana. Nesse sentido, o julgamento de atitudes consideradas inadequadas à determinada bolha social é repudiada com perseguições, xingamentos e crítica excessivas na tentativa de fazer justiça com as próprias mãos e, invariavelmente, acaba por sentenciar pessoas sem prova material, trabalho esse que não costuma acontecer no Poder Judiciário que é quem está apto a essa prática.
Ademais, esses linchamentos são um dos principais promotores da crise existente em valores sociais coletivos na sociedade. De acordo com o sociólogo Emile Durkheim a ação participativa do sujeito em meio ao corpo social é fundamental na manutenção de ideais, sendo tal ruptura passível de levar alguém ao suicídio conhecido como anômico. Desse modo, a cultura do cancelamento vigente no país que, embora muitas das vezes tente instaurar justiça, acaba por promover a exclusão e a segregação de grupos ou pessoas das quais, eventualmente, podem tirar a própria vida mediante à exposição vexatória.
Assim, a inviabilização de práticas segregacionistas e de disseminação ou culto ao ódio devem ser repudiadas em meio à tentativa de fazer justiça. Portanto, é fundamental que o Poder Legislativo, por intermédio de um projeto de Lei, estabeleça no Código Penal Brasileiro a estipulação de medidas sócio-educativas ou coercitivas como pagamento de multas, doação de cestas básicas e trabalho voluntário para quem praticar linchamentos físicos, emocionais ou virtuais a fim de coibir essa prática que se tornou comum no Brasil e, simultaneamente, reinterpretar a noção de felicidade descrita por Freud.