Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 25/10/2021
Na Idade Média, a Igreja Católica controlava a política, cultura, sociedade, valores e as crenças da época. Desse modo, aqueles que discordavam de seus métodos e doutrinas eram exilados ou julgados pela Santa Inquisição. Paralelo a isso, a cultura do cancelamento é a reformulação contemporânea da Inquisição, visto que, é um julgamento prático difundido nas redes sociais que visa a exclusão daqueles que possuem comportamentos e opiniões divergentes. Diante dessa perspectiva, a busca por justiça social e a omissão governamental agravam o fenômeno.
Em uma primeira análise, deve-se ressaltar a procura por justiça social como um obstáculo. Sob esse viés, segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé, o ser humano sempre foi predisposto a incitar o linchamento aos outros e categorizar tais ações como condutas moralistas. Dessa forma, esse fato, infelizmente, representa a conjuntura de muitos indivíduos que, frequentemente recebem o “cancelamento virtual” através de discursos de ódio em massa, sem oportunidade de defesa. Nessa lógica, o cancelamento, apesar de ser um linchamento virtual, é justificado por seus usuários por apresentar uma falsa sensação de justiça social. Logo, é inadmissível que esse cenário continue a perdurar, uma vez que, é responsável por graves consequências, entre elas, gatilhos para transtornos mentais, ansiedade, depressão, pânico e riscos para saúde mental.
Ademais, é fundamental apontar a carência de políticas públicas como impulsionadora da questão. Nesse âmbito, conforme o filósofo Thomas Hobbes, esse contexto configura-se como uma violação de sua teoria “contrato social”, já que o Estado não cumpre com o seu dever de garantir os direitos necessários para o bem-estar dos indivíduos. Nesse sentido, é função do Estado impedir o crescimento dessa prática nas mídias sociais, dado que, a Constituição Federal de 1988 confere o direito à segurança como inerente a todo cidadão brasileiro. Contudo, a ausência de medidas que impeçam a propagação de comentários de ódio e a humilhação pública de pessoas na internet, dificulta a universalização desse direito social presente na Carta Constitucional. Assim, o controle dessa problemática é primordial para a proteção dos usuários no espaço virtual.
Portanto, medidas são necessárias para combater esse impasse. Para isso, cabe ao Ministério da Educação, em parcerias com as mídias, realizar uma campanha publicitária, por meio de anúncios transmitidos nas escolas e nas mídias digitais, com o objetivo de informar sobre as consequências do cancelamento, além de limitar os comentários de ódio e auxiliar as vítimas, a fim de reduzir e debater sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea. Dessa maneira, torna-se possível a construção de uma sociedade permeada pela efetivação dos elementos elencados na Magna Carta.