Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 30/10/2021
Nas telas, o seriado Black Mirror retrata, em um dos seus episódios, um mundo no qual a vida em sociedade depende do bom status nas redes sociais. Nesse viés, a realidade tem se aproximado da ficção diante de fenômenos contemporâneos como a cultura do cancelamento, a qual apresenta-se como um tribunal cruel e arbitrário, de forma a influenciar comportamentos artificiais em prol de aceitação.
Primeiramente, destaca-se a o caráter inquisitório desse tipo de manifestação, uma vez que o cancelado sequer tem seu direito de defesa preservado. Outrossim, a exemplo dos julgamentos à fogueira medievais do século XV, observa-se também, infelizmente, a impiedosa contemplação, pelas massas, dos males ao condenado. Nesse contexto punitivo, estão entre as sentenças mais comuns: humilhação, desprezo, perdas financeiras e, até mesmo, danos psicológicos.
Por consequência, diante do receio do julgamento, a constante busca por aprovação tornou-se a atitude mais compartilhada, em especial, na Internet. Nesse cenário, bem argumenta o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, para quem as redes sociais reprimem as habilidades sociais, entre elas o diálogo. Assim, usuários tendem a evitar controvérsias pela simulação de comportamentos esperados, o que prejudica o bom, e importante, debate de ideias.
Infere-se, dessarte, que a cultura do cancelamento demanda ações urgentes do poder público. Para isso, cabe ao Ministério da Cidadania, em parceria com o Ministério da Educação, implementar ações de sensibilização social - a exemplo do realizado com a temática do bullying -, por meio de campanhas nos meios de comunicação, a fim de amenizar a cultura do cancelamento e suas consequências; outrossim, estimular o debate sobre essa temática no sistema de ensino, bem como disponibilizar conteúdos compartilháveis para a participação dos usuários nas redes sociais. Assim, limitar-se-á tais fenômenos indesejados à ficção dos seriados televisivos.