Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 08/11/2021

Quando surgiram as redes sociais, no início dos anos 2000, a ideia principal era potencializar a sociabilidade via meios virtuais, entretanto, com o avanço do debate político entre os cidadãos, as redes sociais tornaram-se palco de discussões acaloradas. Nesse contexto, nota-se, contemporaneamente, que a cultura do cancelamento é, em muitos casos, um pré-julgamento sem direito à defesa de muitos brasileros. Tal fato se justifica porque o cancelamento torna o cancelado um ser ignorado socialmente, ademais, o indivíduo que sofre dessa sanção jamais será desvinculado da sua ação “maléfica”.

Em uma primeira análise, é preciso elucidar que o indivíduo cancelado, independentemente se ele se manifestou intencionalmente errado ou se expressou mal, será “envelopado” socialmente para silenciar, dessa maneira, sua voz social. Diferentemente dessa atitude, o filósofo contemporâneo Habermans demonstra que a melhor forma de resolver conflitos é por meio da razão dialógica, em que os cidadãos em posições opostas de pensamentos dialogam inteligivelmente na tentativa de chegarem a um conseso. Analogamente contrário a ideia de Habermans, a cultura do cancelamento afasta os indivíduos, pois pré-julga sem ouvir o acusado, criando uma condição de razão “monológica”, visto que só os canceladores detém a voz e o senso de justiça. Assim, cria-se um cenário sem direito de defesa do cancelado, o que consequentemente destroi a possibilidade de consenso entre as partes.

Outrossim, é preciso refletir sobre a falta de efemeridade do processo de cancelamento, o qual resiste a longos prazos nas redes sociais, associando no presente posturas antigas que não dizem mais respeito ao indivíduo atual. Na “contra mão” dessa lógica, Nicolau Maquiável, pensador político absolutista, entendia que o mal a uma pessoa deveria ser feito de forma rápida e educativa, enquanto o bem deveria ser durável e prazeroso. Novamente, na linha contrária de um pensador importante, o cancelamento pratica o mal duradouro, não permitindo a redenção do indivíduo mesmo que ele tenha se arrepedindo e assumido, de forma sincera, a postura dos seus julgadores, pois, ainda assim, ele estará vinculado a um momento social importuno do seu passado.

Desse modo, faz-se necessário criar medidas que assegurem a oportunidade de expressão e de defesa dos cancelados no Brasil. Para isso, será necessário que o Ministério das Telecomunicações - maior e mais importante instituição informacional do Brasil-, por meio da contratação e treinamento de agentes sociais relevantes, como os “youtubers”, dissemine nas redes sociais a importância do diálogo antes do julgamento de um indivíduo, para que, assim, todos cidadãos tenham voz de defesa. Feito isso, o Brasil evoluirá para uma sociedade que, semelhante ao início dos anos 2000, potencialize a sociabilidade nos meios virtuais.