Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 10/11/2021
O geógrafo brasileiro Milton Santos, no texto “Cidadanias Mutiladas”, defendeu que a democracia - principal meio para fundamentação da liberdade de expressão - só é efetiva quando atinge a totalidade do corpo social. Contudo, a prática da cultura do cancelamento na internet, problemática motivada pelo silenciamento educacional e pela ineficiência das leis, remonta o conceito de uma sociedade que, na prática, não goza de uma cidadania ampla. Sendo assim, urge a importância de analisar as vertentes que compõem o problema e, enfim, desmistificar essa situação.
A princípio, consoante o pensamento do filósofo grego Aristóteles, a educação - ferramenta essencial para a promoção do bem-estar social - é fundamental para a formação da vida pública cidadã. Posto isso, observa-se a realidade em contrapartida com a tese do autor, haja vista que as instituições de ensino pouco problematizam o cancelamento virtual com as suas perversas consequências e, por fim, resulta-se na banalização da problemática, uma vez que retira do cidadão o conhecimento. Logo, a não ministração de aulas que abordem essa temática traz à tona uma realidade totalmente manipulável - já que a comunidade, refém do desconhecimento, fica suscetível à disseminação de inverdades. Assim, reverbera-se a estigmatização da problemática e a contribuição para o seu veemente aumento.
Ademais, é imperioso reconhecer que o cenário supracitado não remete ao que defende arcabouço jurídico país. Isso porque o artigo 5 da Constituição Federal caracteriza a liberdade de expressão como direito de todos, garantido com prioridade por parte do Estado. Entretanto, casos como o da ex-participante do “Big Brother Brasil”, Karol Conká, que em virtude da manifestação de seus pensamentos, foi vítima de discriminação virtual - ao extremo de sofrer ataques racistas e misógenos -, demonstram que tal prerrogativa legal, de fato, não se concretiza e a cultura do cancelamento, cada vez mais, tem feito parte de uma triste realidade do âmbito virtual. Destarte, torna-se evidente a urgência de encontrar meios para reverter esse quadro.
Entende-se, portanto, a real necessidade de promover ações para mitigar o impasse. Para isso, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com os veículos informativos, como rádio, televisão, revistas e internet, promoverem palestras que transmitam para a sociedade os impactos ocasionados pelo cancelamento, junto à importância do respeito aos diferentes tipos de opiniões, a fim de tornar a população consciente. Dessa forma, far-se-á com que os direitos constitucionais se efetivem e, finalmente, o Brasil não mais tenha a característica de uma “cidadania multilada