Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 11/11/2021
A obra “1984”, do escritor George Owrell, retrata uma realidade distópica em que a população passa diariamente 2 minutos na frente de uma tela destilando ódio. Fora da literatura, é notório que a situação apresentada na obra pode ser relacionada ao hodierno cenário brasileiro que, em razão do descaso acerca da intolerância digital e do anonimato proporcionado pela internet, intensifica o debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea. Logo, são necessárias ações sociais e estatais na contenção dessa adversidade, sob pena de prejuízos à coletividade.
Em primeiro plano, é imperioso salientar que a negligência acerca da cultura do cancelamento, ocasionada por ser uma forma de intolerância e desrespeito manifestada de forma simbólica- verbal e psicológica- , favorece a institucionalização dos discursos de ódio. De acordo com o célebre sociólogo Pierre Boudieu uma das mais perigosas formas de violência é a denominada “Violência Simbólica”, forma sútil de coação que se da por meio da linguagem- falada ou imagética- nos diversos setores sociais, como a internet. Dessa forma, o linchamento virtual, tipificado pela manifestação do ódio e pela falta de empatia, representa a violência denunciada por Bourdieu, haja vista que a forma minuciosa de sua propagação- via internet- contribui para a perpetuação dessa prática grave e deplorável.
Ademais, é conveniente destacar que o anonimato proporcionado pelas redes sociais constitui o conforto necessário para os autores do cancelamento realizarem as mais diversas maneiras de boicote e constrangimento, tendo em vista que não há como a vítima fugir, pois, mesmo em casa, pode receber insultos. Contrariamente a essa lógica, a lei 12.965, denominada Marco Civil da Internet, prevê, além da proteção à privacidade, a responsabilização daqueles que atuarem de forma lesiva no que tange aos direitos previstos, todavia percebe-se que, muitas vezes, tal lei não é efetivada, o que favorece a atuação e a impunidade dos transgressores. Assim, são necessárias intervenções estatais, pois enquanto o discurso de ódio na internet for regra, o respeito será a exceção.
Portanto, a fim de de conscietizar o corpo social sobre a importância da discussão da cultura do cancelamento, urge que as escolas e as famílias, instituições formadas de opinião, invistam, por intermédio da realização de palestras e debates, no estímulo ao desenvolvimento de um comportamento que preze pelo senso de coletividade e de respeito. Além disso, compete ao governo federal a criação de mais delegacias digitais com o escopo de cumprir os preceitos instituídos pelo Marco Civil da Internet e diminuir a atuação dos infratores que se veêm protegidos pelo anonimato. Somente assim poder-se-á combater o linchamento virtual e contribuir para que o drama narrado em “1984” seja, em breve, aoenas ficção.