Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 18/11/2021
Na década de 50, Carlos Lacerda, fundador do jornal Tribuna da Imprensa, conseguiu enfraquecer o apoio ao presidente Getúlio Vargas através de inúmeros editoriais que tinham por objetivo desgastar a imagem do “pai dos pobres” perante a opinião pública. Quase 70 anos depois, a cultura do cancelamento, fortemente enraizada em território nacional, promove o linchamento generalizado de figuras públicas e dificulta o debate acerca de determinados assuntos. Dentre as causas que contribuem com esse problema, destaca-se a intolerância com indivíduos de opiniões divergentes.
Nessa perspectiva, cabe pontuar que o objetivo inicial desse tipo de prática se resumia a chamar atenção para determinadas causas sociais. Contudo, observa-se outra realidade no cenário brasileiro, posto que, de acordo com um estudo realizado pela empresa de comunicação Mutato em 2020, a divergência política figura entre os três maiores motivadores dos ataques generalizados. Evidencia-se, portanto, que, embora o objetivo inicial desse tipo de prática seja nobre, os verdadeiros motivadores que sustentam os linchamentos virtuais estão diretamente relacionados com a intolerância contra indivíduos com opiniões divergentes.
Ademais, a prática do cancelamento é uma forma pouco eficaz de apontar erros e, consequentemente, incentivar a discussão acerca do tema em questão. Segundo o filósofo contemporâneo Pondé, questões que deveriam gerar debate e levar à desconstrução de opiniões equivocadas acabam dando margem para uma perseguição que objetiva, em última análise, o silenciamento do outro. Torna-se claro, nesse sentido, que esse tipo de prática não só dificulta o debate acerca de determinados temas, como também não permite que os “cancelados” aprendam com os seus erros.
Portanto, diante dos desafios supracitados, pode-se inferir que as consequências associadas à cultura do cancelamento é um tema relevante e que carece de soluções. Sendo assim, cabe a mídia televisiva, grande difusora de informação e principal veículo formador de opinião, promover campanhas publicitárias que tenham por objetivo demonstrar as possíveis consequências negativas associadas aos cancelamentos, a fim de acabar com esse tipo de prática e promover o debate acerca do tema. Só assim, a prática difundida pelo jornal Tribuna da Imprensa ficará restrita à década de 50.