Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 17/09/2022

Segundo o professor e filósofo Mário Sérgio Cortella, ética é a proteção da decência, ou seja, o indivíduo não deve praticar atos que degradem sua própria história, firam uma comunidade, desonrem sua família ou degradem a sua identidade. Por isso, quando esses atos são cometidos, acarretam retaliações da sociedade, uma espécie de punição ao erro de conduta, como é o caso da cultura do cancelamento nos tempos atuais, cujas consequências apresentam-se em grandes proporções e precisam de uma análise detalhada.

Em primeiro plano, a cultura do cancelamento incita muito mais o movimento de opressão do que de debate acerca do erro em questão. De acordo com o filósofo grego Sócrates, a maiêutica é uma eficiente modalidade de diálogo que consiste em uma sucessão de perguntas até que sejam encontradas respostas satisfatórias e instiga o interlocutor a descoberta de suas próprias verdades, sendo uma opção muito viável de discussão. Infelizmente, o cancelamento não abre espaço para que haja perguntas, nem para que o assunto seja aprofundado , mas apenas para que o ódio coletivo se manifeste.

Além disso, o cancelado não tem chances de demonstrar arrependimento, uma vez que o “tribunal” imposto pela internet é inflexível. Segundo Felipe Campello, doutor em filosofia pela Universidade de Frankfurt: “O cancelamento é uma lógica que não perdoa. Ela não quer educar. Joga fora essa possibilidade que temos de mudar”. De tal forma, que não atinge outra finalidade que não seja oprimir.

Nesse sentido, o Ministério da Educação deveria criar um programa chamado “Reflexões”, por meio do qual debates seriam promovidos em todas as instituições de ensino brasileiras sobre figuras públicas, ou não, que tivessem sido alvo de cancelamento ou linchamento virtual, com o objetivo de aprofundar o estudo das causas que levaram aquele indivíduo a ter uma atitude condenável por tantas pessoas e transformá-la em objeto de análise da sociedade como um todo, para que determinada atitude questionável não fosse reproduzida por outras pessoas. Ademais, psicólogos poderiam intermediar essses debates para torná-los ainda mais produtivos. Dessa forma,o Brasil caminhará para um futuro com cidadãos mais ponderados.