Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/08/2022
Cancelamento: da empatia ao egoísmo
Segundo a Constituição Federal de 1988, todos os brasileiros têm direito à liber- dade de expressão. Embora prenunciado na lei, o direito citado não determina limi- tações ao ser usado, mesmo que possa ferir a integridade de outro indivíduo. Des-
sa maneira, o cancelamento virtual atua, na sociedade contemporânea, como posi- cionamento de julgar atitudes individuais ou coletivas, já que se relaciona com uma estrutura de poder estabelecida na internet. Assim, torna-se notória a necessidade de ressaltar as causas e consequências desse fato social do século XXI.
Primeiramente, é preciso pontuar o egoísmo e a falta de empatia como princi- pais causadores do problema. Como em “A era do vazio”, obra escrita pelo filósofo Litovetsky, a cultura do sacrifício já está morta e, com isso, não se sente mais a dor do outro. Nesse contexto, percebe-se a velocidade da propagação das ações virtu-ais e a volatilidade de comportamentos, haja vista que cidadãos são cancelados por falhas momentâneas. Desse modo, tal fato ocorre sem ponderação mediante aos resultados, posto que o agente necessita de uma validação coletiva dos membros do grupo em que pertence.
Ademais, o linxamento virtual acarreta obstáculos sobre diversos âmbitos da vida social. A partir disso, o discurso de ódio resulta em consequências negativas não só à saúde física e mental, mas também às atividades de trabalho, como ocorreu com a cantora Luísa Sonza, que após o surgimento de notícias falsas sobre seu antigo relacionamento foi cancelada, resultando em prejuízos laborais e traumas psico- lógicos à artista. No entanto, a busca por erros de anônimos ou famosos perdura na internet pela manutenção de uma estrutura hieráquica, a qual oculta verda- deiras identidades dos julgadores virtuais.
Portanto, medidas que visam intervir no ciclo da cultura do cancelamento são im- portantes ao país. Para isso, o governo federal em comum acordo com os sistemas midiáticos deve não só incentivar o diálogo, por meio de campanhas e cartilhas, mas também oferecer tratamento psicológico aos afetados. Com isso, ressignificar valores morais e garantir a reinserção dos cancelados ao ambiente virtual e, assim, assegurar os direitos previstos na Constituição a todos os brasileiros.