Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 02/03/2023

“o homem é lobo do próprio homem”. Thomas Hobbes, no seu livro O Leviatã, empregou essa frase em referência a compreensão da natureza humana como essencialmente malévola. Esse frase se expressa de maneira acertada, visto que a sociedade perfilhou o malgrado comportamento de cancelar, isto é, pré-julgar e condenar o outro, independente de qualquer conhecimento prévio, sem assumir o risco de produção de resultados nefastos na vida de uma pessoa ou empresa. Desse modo, cabe argumentar a respeito das razões que legitimam essa cultura.

Preliminarmente, é importante apontar que a cultura do cancelamento é um fenômeno advindo da pós modernidade, no sentido de que a “internet deu voz aos imbecís”, como afirmou o Jurista Alexandre de Moraes. Nessa esteira, pode-se indicar como fatores determinantes dessa prática a redundante ignorância associada á falta de educação. A cultura do cancelamento está assentada na perspectiva populista das pessoas em atuar como juíz, juri e executor sem qualquer respaldo com a intenção de pesquisar a veracidade e compreender as informações. Esse tipo de comportamento apenas endossa a ideia kantiana de que a sociedade ainda perdura no obscurantismo, a qual necessita buscar pela emancipação do esclarecimento.

É fundamental reconhecer que o ato de cancelar outra pessoa por suas falas é um atentado autopoiético contra a concepção Socrática “conheça a ti mesmo”. Essa ideológia perpetuada por Socrátes lança luz ao tema quando vislumbramos que a hipocrísia é domínio público. Nesse pensamento, essa cultura de julgar e condenar o outro por suas atitudes e comportamentos é uma inequívoca e espúria manifestação do desconhecimento de que as pessoas que convivem em sociedade ou tomaram ou vão tomar atitudes, em algum momento da vida, que moralmente não são bem vistas, semelhante a essas que elas mesmas repudiam.

Fica claro que a cultura do cancelamento expõe um contrasenso contra si próprio e uma sociedade pouca instruida. Assim, é preciso que o Estado crie uma cadeira, nas escolas e faculdade, de consciência cidadã para que possa orientar às pessoas no que concerne a extirpar essa cultura. A mídia poderia promover, por meio de séries, o esclarecimento sobre os efeitos nocívos dessa cultura.