Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 02/08/2021

Gregório de Matos, poeta luso-brasileiro, ficou conhecido como “Boca do Inferno”, por denunciar, de maneira ácida, os problemas que assolavam o século XVII. Sob essa óptica, é possível que, no Brasil contemporâneo, ao se deparar com a excruciante situação concebida pelos crescentes atos de gordofobia, o autor produziria críticas a respeito, uma vez que esse entrave passa a deturpar a harmonia social e, portanto, precisa ser mitigado. Destarte, é mister colocar em pauta esse revés,  analisando principalmente os padrões estétiticos difundidos socialmente, adjunto a carência de ações governamentais como os fatores que facilitam a consolidação desse cenário inescrupuloso.

Em primeira instância, urge assentir que os moldes estétiticos disseminados pelas mídias televisivas é um dos motivos para cristalização do imbróglio. Nesse contexto, é necessário ratificar que os agentes midiáticos são os responsáveis pela aversão aos indivíduos acima do peso, haja vista que esses propagam a imagem de um corpo magro e malhado como belos e metas a serem alcançadas, enquanto uma pessoa gorda é representada como feia, sedentária e possível portadora de uma enfermidade, dessa forma, estimulando as pessoas a verem essas como inferiores. Ademais, na série americana “As Visões da Raven”, há um episódio em que a protagonisa, uma mulher negra e com excesso de gordura, é impedida de desfilar, apenas porque ela não se encaixava no “visual” exigido pelos diretores do desfile. Logo, é explícito o quão misógeno essa prática é e que precisa ser extinta da sociedade.

Em segunda análise, é notório que o Estado ao não se mobilizar perante esse panorama abjeto, se configura como culpado, pois ao não promover ações que mitiguem essa adversidade, ele deixa de cumprir com suas funções, e se torna conivente com a situação. Sob esse viés, é fulcral admitir que o conceito “Instituição Zumbi”, criado pelo sociólogo Zygmunt Bauman, pode ser aplicado ao Governo, uma vez que esse mantém sua forma, embora não efetive seus deveres. Dessa maneira, é óbvio que há uma ruptura ao “Pacto Social”, tendo em vista que as ações gordofóbicas afetam a saúde emocional das vítimas e rompe com o bem-estar coletivo. Logo, compete ao poder público mudar essa realidade.

Dessarte, para evitar um cenário semelhante ao do século XVII, o qual era alvo das críticas de Gregório de Matos, far-se-á que o Governo, enquanto instância máxima da administração executiva e responsável pela ordem coletiva, assuma suas responsabilidades e promova ações identitárias, as quais visem conscientizar e possibilitar a erradicação dos moldes estéticos do meio social, por meio de uma reformulação do que a mídia expõe, fazendo essa disseminar a beleza de todos os corpos, além de estimular o respeito entre as diferenças. Desse modo, garantindo que não haja uma ruptura ao Pacto Social, bem como a deturpação do bem-estar entre os indivíduos.