Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 11/08/2021

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) prevê a todos os indivíduos o direito à dignidade. No contexto brasileiro, todavia, esse legado não é efetivado para os grupos com sobrepeso, devido à gordofobia presente na sociedade. Esse cenário, então, não só denota prejuízo à coesão social, como também fomenta a atuação mais incisiva do poder público e da sociedade civil para transformarem essa realidade. Tal problemática, em suma, deve-se à sub-representação dos gordos na sociedade, bem como à negligência estatal.

Em uma primeira análise, observa-se a invisibilidade dos grupos com sobrepeso no meio virtual. Nesse sentido, o advento da Revolução Técnico-Científica-Informacional, conceito desenvolvido pelo geógrafo brasileiro Milton Santos, possibilitou o amplo acesso à internet, por meio da evolução dos canais de comunicação, como telefone celular, que permite postagens. Dessa maneira, a consolidação de um padrão corporal baseado em corpos magros, nas redes sociais, corrobora a não aceitação na sociedade de fotos com indivíduos gordos. Essa situação está em consonância com a teoria dos “Outsiders”, proposto pelo sociólogo Norber Elias, pois os cidadãos que não se encaixam na sociedade são excluídos do espaço, no caso os gordos são suprimidos socialmente por não estarem de acordo com a estética padronizada. Gera-se como consequência o desprezo pela multiplicidade corpórea.

Ademais, em uma segunda análise, mais contundente, nota-se a omissão da União com as pessoas gordas, em razão da falta de infraestrutura para incluí-los no convívio social, a exemplo das cadeiras estreitas em praças. Esse despreparo espacial, em resumo, está em conformidade como pensamento do “Espaço Público”, criado pela filósofa alemã Hannah Arendt, uma vez que reduzir a presença de um grupo no ambiente é uma maneira de desumanizá-lo. Isso resulta, desse modo, na supressão dos grupos com sobrepeso da sociedade pelo diminuto planejamento estrutural.

Percebe-se, portanto, que o direito à dignidade deve ser assegurado conforme a DUDH, com o intuito de diminuir, de maneira paulatina, a gordofobia na sociedade. De início, cabe ao Ministério da Educação, órgão responsável pelas políticas educacionais em âmbito nacional, promover atividades extracurriculares frequentemente, desde o ensino fundamental, por meio de atividades educativas, as quais abordem a questão da gordofobia, como o objetivo de descontruir a padronização corporal advinda da Revolução de Milton Santos e, assim, evitar a exclusão dos “Outsiders”. Paralelo a isso, o poder público deve revitalizar todas as cadeiras de praças públicas por assentos mais largos, com o intuito de incluir os gordos de maneira íntegra e, assim, formar um “Espaço Público” humanizado para tal grupo de cidadãos.