Debate sobre a gordofobia no Brasil
Enviada em 16/08/2021
Na série “Oh Minha Vênus”, retrata-se a história de uma mulher que, apesar de ter sido glorificada como a garota mais bonita da cidade, é completamente marginalizada quando começa a ganhar peso. Ao sair do contexto televisionado e adentrar no Brasil dos tempos atuais, percebe-se que, assim como na trama, milhares de brasileiros pelo simples fato de não seguirem determinados estereótipos midiáticos e nem cultivarem o chamado “corpo” perfeito são, constantemente, segregados e vistos com aversão por grande parte da população. Nesse prisma, faz-se pertinente analisar a relevância de debater sobre a gordofobia no Brasil, bem como a barreira principal que impede seu incentivo.
Com efeito, é fundamental considerar que a importância de sua discussão na sociedade se dá, sobretudo, pelo caráter integrativo e universal que essa prática já objetiva ao buscar desmistificar certos padrões sociais intolerantes. Isso porque, ao tomar como base as palavras do sociólogo Florestan Fernandes, para quem “o brasileiro tem preconceito de ter preconceito”, é nítido, a partir dessa mentalidade, a existência de uma discriminação que, há gerações, é enraizada pela própria normatização e banalização que atos ofensivos adquiriram na realidade. Dessa forma, seu debate adquire extrema pertinência, já que tanto promoveria a erradicação dessa violência, como asseguraria direitos equitativos determinados por lei e ligados ao bem-estar e ao convívio dos indivíduos.
Ademais, convém pontuar que a principal barreira relacionada ao seu debate está ligada, primordialmente, à uma intolerância que foi, progressivamente, incitada pela indústria midiática. Tal situação pode ser verificada já nas palavras do filósofo Guy Debord, para quem, ao afirmar que a comunidade estava inserida em uma espécie de “sociedade do espetáculo”, não só ratificou a existência de uma imagem prototipada que insiste em vincular corpos magros como um padrão de sociabilidade e certo ideal de perfeição, mas também contribuiu para pôr à margem todos aqueles que não seguiam tal espetáculo. Sendo assim, a padronização nas mídias colaborou para difundir, cada vez mais, normas sociais atuantes, assim como dito pela historiadora Lilia Schwarcz, como “marcadores das diferenças”, que tanto propuseram distinções quanto banalizaram atos de agressão.
Portanto, compreende-se que o debate acerca da gordofobia é de extrema importância. Por isso, é essencial que o Ministério da Educação fomente a pluralidade e o cuidado do corpo perante a saúde. Tal iniciativa ocorrerá por meio de um Projeto Nacional de Combate à Gordofobia, o qual irá estimular o respeito, por intermédio de palestras, além de oferecer consultas com médicos e psicólogos, para que a população consiga enxergar a real beleza brasileira. Afinal, é chegada a hora de que todas as “Vênus” não tenham mais seus corpos como “marcadores da diferença”.