Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 12/08/2021

“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana” - escreveu Fernando Pessoa, desconsolado com a hipocrisia da sociedade que aparentava ser perfeita. Nessa época, nem sonhava ele que futuramente as pessoas estariam presas em um padrão que dita até o peso e o formato do corpo que se formar. Nesse contexto, é fundamental o debate acerca da gordofobia no Brasil, discutindo a origem do preconceito contra as pessoas acima do peso, bem como as ocorrências dele na sociedade atual.

De início, para entender a transformação do ideal de “corpo perfeito” na história, é importante perceber que na Grécia Antiga, ser gordo significava acúmulo de riquezas e saúde, e esse conceito se transformou ao longo dos anos. Em contrapartida, no Brasil, estar acima do peso é, majoritariamente, ser alvo de preconceito - sendo considerada uma pessoa não saudável. Analogamente, durante a Segunda Guerra Mundial era perpetuada uma visão semelhante, por Adolf Hitler - com o conceito de eugenia. Essa ideia consistia em considerar que uma raça ariana só poderia melhorar se os nossos geneticamente “inferiores” fossem eliminados ou impedidos de reproduzir. Assim, se os pensamentos e atitudes pré-conceituosas permanecerem, podem-se ocorrer um movimento parecido com o eugenista.         Além disso, é perceptível que, na contemporaneidade, as redes sociais são os principais canais de julgamento, tanto pela rapidez do compartilhamento de informações, quanto pela exposição que se tem esses aplicativos. Nesse contexto, nas Olimpíadas de Tóquio, internautas brasileiros, no Twitter, desencadearam uma série de comentários gordofóbicos nas redes sociais, tanto com a jogadora de vôlei de praia, Rebecca, quanto com a goleira Bárbara, subjugando seus desempenhos por não atenderem a um de beleza imposto pela sociedade. Tal situação pode ser analisada pela perspectiva do filósofo Byung Chul-Han, que acredita que não vivemos mais na Sociedade da Disciplina, como diagnosticou Foucault nos anos 60, mas na Sociedade do Cansaço. Nessa, as pessoas vivem em busca de uma perfeição que não existe, comparando seus estilos de vida com os que outros indivíduos expõem nas redes sociais, e sempre estando insatisfeitos, preparados para julgar.

Destarte, é necessário que o combate à gordofobia no Brasil se inicie no lugar em que ela é exercida com maior alcance: as redes sociais. Assim, é fundamental que o Poder Executivo Federal, mais especificamente o Ministério da Ciência, da Inovação e da Tecnologia, promova uma desconstrução gradual dos padrões de beleza. Tal iniciativa ocorrerá por meio de postagens no Instagram do Ministério, com dados, fatos históricos e literários acerca dos padrões que já existiram ao longo dos anos, mostrando que não devemos nos limitar a eles mas, pelo contrário, devemos quebrá-los. Isso será feito a fim de expor que “Estamos fartos de semideuses”, como disse Fernando Pessoa.