Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 24/08/2021

Durante o livro ‘‘Felicidade Clandestina’’ de Clarice Lispector, é narrado um acontecimento em primeira pessoa sobre a experiência de um livro. Nesse capítulo, a problemática se desenrola sob a perspectiva de livro que a narradora desejava ter, porém, que pertence a uma ‘‘menina má’’ o qual não o emprestava. Dessa forma, muitas vezes a própria autora descrevia tal garata com alguns adjetivos pejorativos, tal como ‘‘gorda’’ e ‘‘feia’’. Destarte, vê-se que tal atitude adotada no livro pela narradora é um fato que exemplifica um ato de preconceito comum na vida de muitos obesos brasileiros, nos quais os modelos de beleza e a violência imposta sobre esses indivíduos são questões a serem debatidas.

Cabe resaltar que os padrões de beleza sempre existiram dentro da humanidade, porém, no século XXI, é muito mais pulsante e evidente. Para esclarecer tal questão, pode-se citar a obra do pintor Caravagio, ‘‘Narciso’’, que retrata um homem imóvel e fixado o olhar em seu próprio reflexo preso à água. Tal obra evidencia claramente o que se vive nas redes sociais nos dias atuais, em que cada vez mais internautas estão preocupados com a visibilidade em redes, por isso exibem suas conquistas pessoais, seus corpos musculosos e magros. Por conseguinte,cada vez mais indivíduos buscam ter a beleza perfeita para poderem se exibir e corresponder as expectativas da sociedade. Todavia, a medida que essa tendência cresce, a gordofobia aumenta progressivamente, uma vez que os obesos ficam à margem do que se entende de ‘‘bonito’’ e ‘‘ideal’’.

Em consequência disso, a violência se instaura contra os menos favorecidos dessa busca insaciável pelo corpo perfeito, ou seja, em desfavor acima do peso. Isso porque, segundo o conceito do sociólogo francês Pierre Bourdieu, a violência simbólica se instaura não de maneira física, mas através das palavras e do pensamente, de tal forma que a vítima pensa ser merecedora daquele abuso. Sob esse viés, surgem os apelidos, como ‘‘baleia’’, ‘‘rolha de poço’’ ou ‘‘butijão’’, que acabam ferindo a dignidade e a auto-estima da pessoa.

Com isso, vê-se que a gordofobia deve ser combatida, uma vez que causa inúmeros malefícios ao bem-estar social. Portanto, cabe ao Ministério da Educação debater tal situação desde nas escolas através de aulas lúdicas e palestras feitas pelos próprios professores com o intuito de instalar um ensino de base empática, em que a busca pelo respeito deverá ser a tese mestra. Ademais, deve-se combater através da punição mais vigorosa, buscando informar e facilitar o acesso a meios jurídicos que busquem processar falas preconceituosas de gordofobia, a fim de combater a impunidade contra tal desrrespeito. Feito isso, poder-se-á ter um país diferente do retratado no livro de Clarice Lispector, em que a tolerância e a harmonia caminham juntas com o progresso de um novo hambiente solidário.